O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, em encontro com a presidente em exercício da Venezuela Delcy Rodriguez, em Caracas, para a assinatura do contrato de exploração: quando um acordo assim se estende por décadas, envolve participação estatal estrangeira, cláusulas de preferência na compra e influência sobre decisões empresariais, a discussão deixa de ser apenas comercial e passa a ser de poder.
AP Photo/Pedro Mattey
Quando um contrato de exploração se estende por décadas, envolve participação estatal estrangeira, cláusulas de preferência na compra e influência sobre decisões empresariais, a discussão deixa de ser apenas comercial e passa a ser de poder
Danos causados pelo tremor de magnitude 7,1 que atingiu o Japão no final de julho de 2026: fato de vários grandes terremotos coincidirem em poucas semanas pode chamar a atenção, mas a proximidade temporal não implica que os fenômenos estejam fisicamente relacionados.
Arafatmyt/Shutterstock
Os recentes terremotos na Venezuela, Colômbia, Indonésia, Japão e Espanha podem nos levar a pensar que estamos passando por uma espécie de “temporada de terremotos”, mas não há nada que de fato os ligue
Equipes de resgate na região de Altamira, Caracas, vasculham os escombros de um prédio danificado pelos terremotos de 25 de junho: capacidade do Estado e da sociedade venezuelanos de se prepararem e responderem a desastres naturais está esgotada.
Boris Vergara / EPA
Os terremotos vêm em um momento politicamente delicado para a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez
Manifestantes protestam contra a intervenção americana na porta da embaixada dos EUA em Caracas: as ações militares na Venezuela são uma afronta à soberania do país e ao Direito Internacional, mas não podem ser analisadas isoladamente. Elas se inserem num contexto de transformação mais ampla da geopolítica contemporânea, que passou a dividir espaço com abordagens temáticas mais diversificadas.. AP Photo/Ariana Cubillos.
O ataque à Venezuela traz de volta à tona perspectivas clássicas de poder, e devem ser entendidos menos como objetivos concretos e mais como instrumentos políticos e discursivos de pressão
Imigrante venezuelana tenta exibir bandeira do país ao presidente Donald Trump, durante cerimônia em que o presidente rump virou nome de rua em Palm Beach, na Flórida: intervenção no país foi uma advertência quanto à manutenção do poder estadunidense na América Latina, e um laboratório para testar até onde alcança o “big stick” da Doutrina Donroe.
AP Photo/Julia Demaree Nikhinson
Invasão do país sul-americano expõe de forma contundente a distância entre a retórica normativa da política externa dos EUA e a prática de um poder que se autoriza a violar, quando lhe convém, as regras elementares do direito internacional
Apoiadores do governo rasgam uma bandeira americana ao meio durante um protesto em Caracas.
AP Photo/Ariana Cubillos
A novidade do episódio atual na Venezuela está na combinação de um gesto militar espetacular com uma narrativa de “administração” direta da “transição” no país
Lula, Trump e a implosão do multilateralismo: processo de erosão do espaço diplomático brasileiro na questão da Venezuela já havia sido exposta anteriormente. Em maio de 2025, uma operação secreta dos EUA retirou, em poucas horas, cinco opositores do governo Maduro que estavam refugiados na Embaixada da Argentina em Caracas, então sob tutela brasileira.
AP Photo/Mark Schiefelbein
Apesar de ambições declaradas de liderança regional e global, o Brasil demonstrou carecer de mecanismos eficazes de antecipação de crises, inteligência integrada e protocolos claros de resposta a eventos de alta complexidade estratégica
Já houve dias melhores: o presidente venezuelano Nicolas Maduro, à esquerda, em reunião com o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em Teerã, em 22 de outubro de 2016.
Gabinete do Líder Supremo do Irã, via AP
Talvez ninguém fora da Venezuela deva se preocupar mais com a invasão dos EUA e o sequestro do presidente Nicolás Maduro do que o líder supremo da República Islâmica do Irã, Ali Khamenei
Um oficial militar venezuelano conforta a mãe de um soldado morto durante o ataque que levou ao sequestro do presidente Nicolás Maduro, em Caracas: no século XXI, a hegemonia não deverá mais ser medida pelo consenso multilateral, por acordos comerciais ou pelo “soft power”, mas pela capacidade de neutralizar defesas alheias e expropriar recursos sob o pretexto de guerras morais fabricadas.
AP Photo/Matias Delacroix
A operação “Absolute Resolve” usou o tabuleiro marítimo como plataforma para rasgar o direito internacional, estabelecendo um precedente perigoso em que a força bruta se apresenta como o único árbitro efetivo das relações entre Estados
A reorganização dos contratos petrolíferos internacionais dos EUA é um elo crucial entre a disputa econômica e a escalada política que desaguaram no ataque à Venezuela. Ao resistir à pressão das sanções econômicas, garantir a sobrevivência dos canais de escoamento do seu petróleo e consolidar a presença chinesa nesse processo, Caracas desafiou diretamente a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério. Esgotadas suas opções indiretas, Washington recorreu ao controle territorial direto como recurso final.
AP Photo/Matias Delacroix
Edna Aparecida da Silva, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU)
Atitudes de Washington deixam claro que, diante da expansão chinesa e da persistência de projetos soberanos que contrariam seus interesses, os EUA estão dispostos a impor pela força os limites da autonomia estatal permitida na região
Lula e Maduro em seu último encontro, na reunião de líderes da América do Sul em Brasília, em 2023: em um ambiente de fragmentação regional e erosão do multilateralismo, uma abordagem bilateral junto à Venezuela e aos Estados Unidos torna-se um caminho promissor.
AP Photo/Gustavo Moreno
Avançar além da condenação retórica exigiria disposição para liderar iniciativas diplomáticas em um contexto regional fragmentado e com poucos países dispostos a criticar os Estados Unidos de forma aberta e sustentada
Montagem da marca Origin publicada na rede social X: mensagem publicitária reorganiza o foco do leitor, levando do sujeito político ao objeto material, em um exemplo de golpe publicitário em tempos de imediatismo
O marketing em tempo real reenquadra acontecimentos políticos como golpes publicitários. Qual é o papel do humor e da reação dos internautas?
Responda rápido: essa foto mostra um Nicolás Maduro capturado, preso, deposto, extraditado ou sequestrado? A resposta pode depender do alinhamento político ou ideológico de quem a descreve, e achar o termo mais correto só não é tão difícil quanto saber o que esperar do “julgamento” de alguém acusado sem provas, detido por forças estrangeiras e transportado com vendas nos olhos para comparecer perante o juízo de um país que, segundo a própria ONU, o Papa e até o jornal The New York Times, agiu de forma ilegal e imprudente.
Imagem: Truth Social/@realDonaldTrump/Reprodução
A escolha da palavra diz muito sobre o alinhamento de um determinado veículo de imprensa com determinadas narrativas ou ideologias
Delcy Rodríguez, presidenta interina da Venezuela. Com a estrutura de poder chavista aparentemente intacta após sua captura, crescem as possibilidades de Maduro ter sido entregue pelos militares americanos em um acordo de Rodríguez com o governo Trump.
AP Photo/Ariana Cubillos
Derrubar Maduro em troca da manutenção do regime chavista sob o custo da entrega do petróleo para os americanos indica que os EUA não se importam com a democracia, e sim com as riquezas do país atacado
Nas fotos oficiais divulgadas pela Casa Branca, o presidente Trump parece monitorar atentamente as operações militares dos EUA na Venezuela, ao lado do secretário de Defesa Pete Hegseth e do diretor da CIA John Ratcliffe. As imagens mostram inconsistências, como cabos de telefone desconectados e monitores ligados em redes sociais. Mas no teatro de guerra real, o espetáculo da força militar americana cumpriu sua função: reivindicou uma América Latina alinhada e submissa, deixando claro que a dissidência tem custos elevados.
Molly Riley/Casa Branca via AP
Ao dissolver a fronteira entre o doméstico e o internacional, criminalizar lideranças estrangeiras e subordinar a soberania latino-americana a interesses estratégicos, Washington reitera uma lógica imperial que atravessa séculos.
Apoiadores armados de Nicolás Maduro se reúnem perto do palácio presidencial de Miraflores, em Caracas, em 3 de janeiro de 2026.
Federico Parra/ AFP via Getty Images
Robert Muggah, Instituto Igarapé; Princeton University
O presidente Donald Trump afirmou que os EUA irão “governar” a Venezuela até que uma “transição segura, adequada e criteriosa” possa ocorrer. Mas isso ainda deixa muitas opções em aberto
Manifestantes se reúnem em frente à Casa Branca no sábado, 3 de janeiro de 2026, em Washington, após os EUA capturarem o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa em uma operação militar.
AP Photo/Julia Demaree Nikhinson
Ofensiva americana envia uma mensagem inequívoca: a expansão chinesa em áreas sensíveis do hemisfério encontra resistência ativa. O recado se dirige a todos os governos que aprofundaram parcerias com Pequim em portos, minerais críticos, redes digitais e financiamento público
Apoiadores do presidente venezuelano Nicolás Maduro se abraçam no centro de Caracas, Venezuela, no sábado, 3 de janeiro de 2026, após o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar que Maduro havia sido capturado e levado para fora do país.
AP Photo/Cristian Hernandez
Robert Muggah, Instituto Igarapé; Princeton University
Ataque se insere na “Doutrina Monroe 2.0”: uma afirmação vigorosa de que rivais extra-hemisféricos, como China, Irã ou Rússia e seus parceiros locais, não terão permissão para se entrincheirar às portas dos Estados Unidos
Na imagem divulgada nas redes sociais da Procuradora-Geral do governo americano Pam Bondi, um helicóptero da Marinha dos EUA intercepta petroleiro que estava a serviço da Venezuela: interesse de Trump no país parece ser mais político e econômico do que propriamente militar.
U.S. Attorney General's Office/X via AP)
Pelo menos por enquanto, as ameaças contra a Venezuela não se traduzem em preparação concreta para uma operação militar de grande escala, e soam mais como pressão política pela deposição de Maduro, com vistas aos interesses comerciais americanos no país
O Gerald Ford, maior porta-aviões do mundo, na costa das Ilhas Virgens, no Caribe.
US Navy Photo
Mais do que a questão energética, o que está em jogo é a configuração do poder nas Américas. Washington tenta reafirmar sua autoridade histórica no hemisfério por meio de pressão militar, retórica de força e políticas migratórias altamente restritivas.