A pergunta não é só quem vencerá em outubro, mas o quanto o vencedor conseguirá alterar tendências já consolidadas. A dependência comercial da China, a busca por parceiros alternativos de defesa e o protagonismo do Brasil no Sul Global são condições estruturais, não escolhas ideológicas passageiras.
Foto: Xenïa Antunes / Wikipedia
Alberto Maresca, Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP); Fundação Getulio Vargas (FGV); United Nations University; Universidade de São Paulo (USP)
A pergunta não é só quem vencerá em outubro, mas o quanto o vencedor conseguirá alterar tendências já consolidadas. A dependência comercial da China, a busca por parceiros alternativos de defesa e o protagonismo do Brasil no Sul Global são condições estruturais, não escolhas ideológicas passageiras
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa nas Nações Unidas: movimentos políticos brasileiros, tanto de esquerda quanto de direita, disputaram a liderança nacionalista ao longo do século XX atribuindo significados muito diferentes a conceitos como soberania e interesse nacional.
Chip Somodevilla/Getty Images
A disputa entre o presidente em exercício e Flávio Bolsonaro faz parte de uma divisão entre a direita e a esquerda em torno do significado da Nação que vem de décadas no país
O caso de Maria Luiza Ribeiro Viotti não é um incidente isolado. A assimetria nas relações diplomáticas entre os dois países é constante. Mudam apenas os meios pelos quais os Estados Unidos a concretizam.
Foto: José Cruz / Agência Brasil
A revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos é o ponto mais visível de uma crise que combina tarifas, disputas regulatórias, segurança pública e vistos, e que expõe uma relação estruturalmente assimétrica entre os dois países
Apesar de assumirem maior projeção agora, desentendimentos entre os presidentes da Argentina e do Brasil ocorrem há algum tempo. Começaram em 2019, com o desalinhamento ideológico dos governos de Alberto Fernández e Jair Bolsonaro. Agora seguem entre Lula e Milei, em polos invertidos.
AP Photo/Natacha Pisarenko
André Araujo, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)
Entre convocações de embaixadores para consultas e rebaixamento das relações, crise diplomática entre os dois países reflete tensões políticas acumuladas há anos
O secretário de defesa dos EUA, Pete Hegseth: apesar do desentendimento e das ameaças de rompimento após a operação na Venezuela, no fim de fevereiro as Forças Armadas estadunidenses atacaram o Irã usando novamente a tecnologia de IA da Anthropic.
Sipa US/Alamy
No centro dessa disputa está a forma como o grande modelo de linguagem Claude da Anthropic está sendo usado em um contexto militar
Iranianos residentes em Istambul, na Turquia, queimam cartaz com a imagem de Donald Trump, durante protesto na porta da Embaixada de Israel após o anúncio da morte do líder Ali Khamenei.
AP Photo/Khalil Hamra
Legítima defesa preventiva e retaliação à violência interna do regime estão entre as falácias usadas por Trump e Netanyahu para justificar a operação
Os presidentes do Brasil, Panamá
Da esquerda para a direita, os presidentes Bernando Arévalo, da Guatemala; Lula, do Brasil; José Raúl Mulino, do Panamá; Sergio Díaz Granados, do Banco de Desenvolvimento da América Latina; Rodrigo Paz, da Bolívia; Daniel Noboa, do Equador; e o primeiro ministro da Jamaica, Andrew Holness, durante o Fórum Econômico Internacional da América Latina e do Caribe, ocorrido em janeiro de 2026 no Panamá: na nova conjuntura geopolítica e comercial global, a unidade latino-americana deixa de ser um projeto apenas identitário, e assume contornos de sobrevivência estratégica.
Foto: Divulgação / Presidência do Panamá
Na América Latina, regimes autoritários e polarização ideológica profunda comprometeram a construção de instituições regionais duradouras. Mas a desunião regional deixou de ser neutra
Barcos de pesca partem de Zhoushan, China: navios permanecem no mar por meses, muitas vezes em águas longe do litoral de seus países, em práticas de sobrepesca que degradam ecossistemas marinhos e afetam a subsistência de populações costeiras.
Zou Xunyong/VCG via Getty Images
A expansão do transporte marítimo no Ártico, a corrida pela mineração do fundo do mar e a pesca excessiva são fatores de pressão nas relações internacionais.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, durante a reunião de cúpula do BRICS, em julho de 2025 no Rio de Janeiro: entrada do país do Oriente Médio no grupo é estratégia multilateralista defendida pelo Brasil, que não teria nada a ganhar com um eventual conflito militar com os EUA.
AP Photo / Eraldo Peres
A presença do Irã no BRICS Plus reforça a ambição do grupo de atuar como espaço de coordenação política fora do eixo euro-atlântico. Ataque americano ao Irã colocaria essa estratégia a perder
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi (à esquerda), durante a reunião de cúpula do BRICS, em julho de 2025 no Rio de Janeiro: entrada do país do Oriente Médio no grupo é estratégia multilateralista defendida pelo Brasil, que não teria nada a ganhar com um eventual conflito militar com os EUA.
AP Photo / Eraldo Peres
A presença do Irã no BRICS Plus reforça a ambição do grupo de atuar como espaço de coordenação política fora do eixo euro-atlântico. Ataque americano ao Irã colocaria essa estratégia a perder
Em Berlim, manifestante iraniano acende um cigarro na foto em chamas do aiatolá Ali Khamenei, num gesto simbólico de protesto contra o governo do país que se espalhou pelo mundo, em mais um episódio no qual o Irã se vê ameaçado de nova intervenção estrangeira.
AP Photo / Ebrahim Noroozi
Interferências estrangeiras não são novidade no Irã. Elas têm sido relativamente frequentes e, em geral, penalizaram os próprios iranianos
Interpretações políticas, regras paralelas e regimes não coordenados estão entre os efeitos já sentidos com o enfraquecimento que órgãos reguladores causado pela redução da participação norte-americana.
Imagem: ONU
Processo inclui tanto retiradas formais quanto reduções drásticas de financiamento em áreas como desenvolvimento, saúde global e programas humanitários
Frustrados com o pacote de emendas aprovado pelos eurodeputados, agricultores da UE realizam o maior protesto agrícola desde os anos 1990. Em Bruxelas, mais de 10 mil manifestantes se concentram desde o dia 18 de dezembro nas imediações do Parlamento Europeu, em constantes conflitos com a polícia.
AP Photo/Marius Burgelman
Categoria intensifica pressão sobre os chefes de Estado e de governo que estão reunidos no Conselho Europeu com um objetivo claro: impedir avanços políticos imediatos no Acordo UE-Mercosul
Manifestantes protestam em Washington contra o encerramento das atividades do USAID no exterior, que entre outros danos cortou o financiamento do PEPFAR, principal programa do governo americano no combate global ao vírus HIV e à AIDS.
AP Photo/Mark Schiefelbein
Segundo a ONU, a queda nos repasses para organismos vinculados à pasta entre 2024 e 2025 foi superior a 70% - uma retração abrupta e sem precedentes recentes
Na imagem divulgada nas redes sociais da Procuradora-Geral do governo americano Pam Bondi, um helicóptero da Marinha dos EUA intercepta petroleiro que estava a serviço da Venezuela: interesse de Trump no país parece ser mais político e econômico do que propriamente militar.
U.S. Attorney General's Office/X via AP)
Pelo menos por enquanto, as ameaças contra a Venezuela não se traduzem em preparação concreta para uma operação militar de grande escala, e soam mais como pressão política pela deposição de Maduro, com vistas aos interesses comerciais americanos no país
A participação dos indígenas na COP 30 não se limitou a atos simbólicos. Eles lideraram debates e apresentaram propostas.
AP Photo / Fernando Llano
Mobilização transnacional de povos amazônicos reforçou a centralidade política dos povos originários na defesa dos ecossistemas amazônicos e na denúncia dos impactos da crise climática sobre seus territórios
No Canal do Panamá, os Portos de Balboa (foto), do lado do Pacífico, e Cristóbal, do lado do do Golfo do México, movimentam cerca de 6% do comércio marítimo global. A presença chinesa nesses locais, administrados pela Hutchison Ports de Hong Kong, gera inquietação em Washington, que percebe esses contratos de longa duração como uma potencial influência econômica e estratégica externa. Em discurso público, Trump chegou a mencionar a necessidade de “recuperar” o controle do canal, o que evidencia o uso da retórica histórica para legitimar projeções de poder.
AP Photo/Noah Berger
O Canal do Panamá, os portos do Caribe e rotas próximas ao Atlântico Norte e Sul não são apenas pontos de trânsito de mercadorias: são nós críticos que conectam flutuações econômicas globais à presença militar
Venezuelanos acendem velas em Bogotá, Colômbia, durante uma manifestação pela libertação do que consideram serem prisioneiros políticos e em homenagem à líder da oposição Maria Corina Machado, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2025.
AP Photo/Ivan Valencia
O Brasil corre o risco de perder a capacidade de influenciar os rumos da crise, tornando-se mero espectador de uma nova rodada de tensões regionais e, talvez, de um conflito.
Com a diminuição da centralidade das potências ocidentais e a ampliação dos polos de influência, o multilateralismo se transforma e da oportunidades a países do Sul Global, especialmente os da América do Sul.
Foto: Nações Unidas
Desafio para o Brasil está em transformar discursos de autonomia em políticas concretas e sustentáveis, atuando como protagonistas na disputa global
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, discursa durante a última 80 Assembleia Geral da ONU: crise da entidade é um reflexo do contexto mais amplo da política internacional, em que há uma perceptível redistribuição de poder resultante da ascensão de países emergentes, sobretudo a China, e a redução relativa do poder norte-americano e europeu.
Aniversário ocorre em um momento de crise de representatividade da ONU, envolvida numa nova ordem mundial com crescentes disputas e competição entre os principais blocos de países e interesses internacionais.
Diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Xeque e Professor de Comunicação Política, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)