Manifestantes protestam contra a intervenção americana na porta da embaixada dos EUA em Caracas: as ações militares na Venezuela são uma afronta à soberania do país e ao Direito Internacional, mas não podem ser analisadas isoladamente. Elas se inserem num contexto de transformação mais ampla da geopolítica contemporânea, que passou a dividir espaço com abordagens temáticas mais diversificadas.. AP Photo/Ariana Cubillos.
O ataque à Venezuela traz de volta à tona perspectivas clássicas de poder, e devem ser entendidos menos como objetivos concretos e mais como instrumentos políticos e discursivos de pressão
Imigrante venezuelana tenta exibir bandeira do país ao presidente Donald Trump, durante cerimônia em que o presidente rump virou nome de rua em Palm Beach, na Flórida: intervenção no país foi uma advertência quanto à manutenção do poder estadunidense na América Latina, e um laboratório para testar até onde alcança o “big stick” da Doutrina Donroe.
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Invasão do país sul-americano expõe de forma contundente a distância entre a retórica normativa da política externa dos EUA e a prática de um poder que se autoriza a violar, quando lhe convém, as regras elementares do direito internacional
A empresa petrolífera estatal venezuelana enfrenta problemas relacionados com o envelhecimento das infraestruturas.
Michael Robinson Chavez/The Washington Post via Getty Images
As empresas petrolíferas americanas nunca deixaram de investir e operar na indústria petrolífera da Venezuela, apesar das muitas mudanças nos termos do seu envolvimento
Apoiadores do governo rasgam uma bandeira americana ao meio durante um protesto em Caracas.
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A novidade do episódio atual na Venezuela está na combinação de um gesto militar espetacular com uma narrativa de “administração” direta da “transição” no país
Lula, Trump e a implosão do multilateralismo: processo de erosão do espaço diplomático brasileiro na questão da Venezuela já havia sido exposta anteriormente. Em maio de 2025, uma operação secreta dos EUA retirou, em poucas horas, cinco opositores do governo Maduro que estavam refugiados na Embaixada da Argentina em Caracas, então sob tutela brasileira.
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Apesar de ambições declaradas de liderança regional e global, o Brasil demonstrou carecer de mecanismos eficazes de antecipação de crises, inteligência integrada e protocolos claros de resposta a eventos de alta complexidade estratégica
Já houve dias melhores: o presidente venezuelano Nicolas Maduro, à esquerda, em reunião com o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em Teerã, em 22 de outubro de 2016.
Gabinete do Líder Supremo do Irã, via AP
Talvez ninguém fora da Venezuela deva se preocupar mais com a invasão dos EUA e o sequestro do presidente Nicolás Maduro do que o líder supremo da República Islâmica do Irã, Ali Khamenei
Um oficial militar venezuelano conforta a mãe de um soldado morto durante o ataque que levou ao sequestro do presidente Nicolás Maduro, em Caracas: no século XXI, a hegemonia não deverá mais ser medida pelo consenso multilateral, por acordos comerciais ou pelo “soft power”, mas pela capacidade de neutralizar defesas alheias e expropriar recursos sob o pretexto de guerras morais fabricadas.
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A operação “Absolute Resolve” usou o tabuleiro marítimo como plataforma para rasgar o direito internacional, estabelecendo um precedente perigoso em que a força bruta se apresenta como o único árbitro efetivo das relações entre Estados
A reorganização dos contratos petrolíferos internacionais dos EUA é um elo crucial entre a disputa econômica e a escalada política que desaguaram no ataque à Venezuela. Ao resistir à pressão das sanções econômicas, garantir a sobrevivência dos canais de escoamento do seu petróleo e consolidar a presença chinesa nesse processo, Caracas desafiou diretamente a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério. Esgotadas suas opções indiretas, Washington recorreu ao controle territorial direto como recurso final.
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Edna Aparecida da Silva, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU)
Atitudes de Washington deixam claro que, diante da expansão chinesa e da persistência de projetos soberanos que contrariam seus interesses, os EUA estão dispostos a impor pela força os limites da autonomia estatal permitida na região
Lula e Maduro em seu último encontro, na reunião de líderes da América do Sul em Brasília, em 2023: em um ambiente de fragmentação regional e erosão do multilateralismo, uma abordagem bilateral junto à Venezuela e aos Estados Unidos torna-se um caminho promissor.
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Avançar além da condenação retórica exigiria disposição para liderar iniciativas diplomáticas em um contexto regional fragmentado e com poucos países dispostos a criticar os Estados Unidos de forma aberta e sustentada
Montagem da marca Origin publicada na rede social X: mensagem publicitária reorganiza o foco do leitor, levando do sujeito político ao objeto material, em um exemplo de golpe publicitário em tempos de imediatismo
O marketing em tempo real reenquadra acontecimentos políticos como golpes publicitários. Qual é o papel do humor e da reação dos internautas?
Responda rápido: essa foto mostra um Nicolás Maduro capturado, preso, deposto, extraditado ou sequestrado? A resposta pode depender do alinhamento político ou ideológico de quem a descreve, e achar o termo mais correto só não é tão difícil quanto saber o que esperar do “julgamento” de alguém acusado sem provas, detido por forças estrangeiras e transportado com vendas nos olhos para comparecer perante o juízo de um país que, segundo a própria ONU, o Papa e até o jornal The New York Times, agiu de forma ilegal e imprudente.
Imagem: Truth Social/@realDonaldTrump/Reprodução
A escolha da palavra diz muito sobre o alinhamento de um determinado veículo de imprensa com determinadas narrativas ou ideologias
Apoiadores do presidente venezuelano Nicolás Maduro se reúnem durante uma manifestação em Caracas, em 4 de janeiro de 2026.
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Se Washington governar pela força na Venezuela, repetirá os fracassos do Afeganistão, Iraque e Líbia: o poder pode derrubar regimes, mas não pode criar autoridade política ou legitimidade.
Apoiadores armados de Nicolás Maduro se reúnem perto do palácio presidencial de Miraflores, em Caracas, em 3 de janeiro de 2026.
Federico Parra/ AFP via Getty Images
Robert Muggah, Instituto Igarapé; Princeton University
O presidente Donald Trump afirmou que os EUA irão “governar” a Venezuela até que uma “transição segura, adequada e criteriosa” possa ocorrer. Mas isso ainda deixa muitas opções em aberto
Manifestantes se reúnem em frente à Casa Branca no sábado, 3 de janeiro de 2026, em Washington, após os EUA capturarem o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa em uma operação militar.
AP Photo/Julia Demaree Nikhinson
Ofensiva americana envia uma mensagem inequívoca: a expansão chinesa em áreas sensíveis do hemisfério encontra resistência ativa. O recado se dirige a todos os governos que aprofundaram parcerias com Pequim em portos, minerais críticos, redes digitais e financiamento público
Venezuelanos acendem velas em Bogotá, Colômbia, durante uma manifestação pela libertação do que consideram serem prisioneiros políticos e em homenagem à líder da oposição Maria Corina Machado, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2025.
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O Brasil corre o risco de perder a capacidade de influenciar os rumos da crise, tornando-se mero espectador de uma nova rodada de tensões regionais e, talvez, de um conflito.
Fuzileiros navais dos EUA estacionam um avião de combate Lockheed Martin F-35B na Estação Naval Roosevelt Roads, em Porto Rico, em 13 de setembro de 2025. Embora as chances de um ataque e até mesmo de uma mudança de regime estejam aumentando, a estratégia de Washington no curto prazo parece continuar sendo a de pressão sem comprometimento total, usando demonstrações de força, sanções e ataques seletivos para enfraquecer Caracas e, ao mesmo tempo, evitar ser arrastado para uma guerra complicada ou provocar um choque do petróleo.
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O aumento da presença militar dos EUA no Caribe levou o presidente venezuelano Nicolás Maduro a responder com exercícios militares
O Ministro da Defesa da Venezuela Vladimir Padrino López (ao centro), discursa ao lado de militares sobre as medidas que o país deverá tomar caso a intervenção de navios dos EUA na costa venezuelana se concretize. Segundo avaliação do governo, a suposta ação contra o narcotráfico pode ocultar tentativa de desestabilização do governo de Nicolás Maduro.
Foto: Jornal MiOriente/Colombia
Envio de navios americanos ao Caribe combina sinais de projeção de força militar destinada a combater o narcotráfico ao mesmo tempo em que aplica pressão política e jurídica com o objetivo de enfraquecer o governo de Nicolás Maduro
Protesto contra a posse de Maduro, em janeiro: A Revolução Bolivariana completou 25 anos à frente do poder político, alcançando o apogeu na primeira década do século XXI, com prosperidade econômica e social. Entretanto, desde 2013 é marcada por altos níveis de polarização política, derretimento das melhorias sociais e dificuldades materiais.
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O lulismo e parte do Itamaraty convergem na ideia de que, para se afirmar globalmente, o Brasil precisa ser reconhecido como líder regional. Nesse contexto, a Venezuela e a postura apaziguadora adotada por nossa diplomacia representam grandes desafios
Embora insatisfeito com a postura de Maduro, que se negou a mostrar as atas eleitorais em julho de 2024, o Brasil deve seguir uma abordagem pragmática, reconhecendo que romper completamente os laços com a Venezuela seria pouco vantajoso.
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A chegada de Trump ao poder pode ser
um fator de estabilização nas relações entre Brasil e Venezuela. O Brasil deve seguir uma abordagem pragmática. Romper os laços com a Venezuela seria pouco vantajoso.
O presidente Lula e Nicolas Maduro em um encontro em Brasília, em 2023, após oito anos de distanciamento: posição do Itamaraty sobre a duvidosa eleição na Venezuela pende entre a necessidade global de defesa intransigente da democracia e a postura de neutralidade e liderança regional que a marcam a tradição da diplomacia brasileira.
Marcelo Camargo/Agência Brasil
O imbróglio eleitoral venezuelano pode ser uma oportunidade única para o Brasil equilibrar demandas democráticas com os princípios históricos que trazem coerência e estabilidade à nossa política externa no âmbito regional