O secretário de Estado Marco Rubio, cuja atuação desperta desconfianças no próprio Congresso Americano sobre possível interferência no processo eleitoral do Brasil: a tentativa de um país de influenciar a política interna de outro não é nenhuma novidade. A diferença é que as plataformas digitais agora oferecem uma velocidade e uma camuflagem inéditas para ações do tipo. E o alvo desses ataques não são máquinas, mas sim o próprio debate público, que é inundado por desinformações que corroem a confiança nas instituições democráticas e deformam a percepção dos cidadãos.
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Pesquisas revelam que ameaça eleitoral não atinge somente urnas, mas também sequestra debate público, usando polarização para corroer confiança nas instituições democráticas
O Lago Ontário já “rebatizado” para “Lago América” na versão estadunidense do Google Maps: escalada comercial entre os dois países ganhou novos contornos após a provocação geográfica e novas ameaças de ampliar tarifas.
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Escalada comercial entre os dois países ganhou novos contornos após Trump determinar a mudança do nome do Lago Ontário e ameaçar ampliar tarifas
O caso de Maria Luiza Ribeiro Viotti não é um incidente isolado. A assimetria nas relações diplomáticas entre os dois países é constante. Mudam apenas os meios pelos quais os Estados Unidos a concretizam.
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A revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos é o ponto mais visível de uma crise que combina tarifas, disputas regulatórias, segurança pública e vistos, e que expõe uma relação estruturalmente assimétrica entre os dois países
O Secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, conversa com o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, durante encontro do G7 em maio de 2026: Rubio está à frente da decisão de classificar o PCC e o CV como grupos terroristas transnacionais: medida cria uma zona cinzenta que pode colocar bancos, empresas, seguradoras, investidores, plataformas financeiras e fintechs sob escrutínio, com possível influência nas próximas eleições.
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A interferência externa contemporânea raramente aparece como fraude direta sobre urnas. Ela se manifesta por discursos, símbolos, redes sociais, pressão econômica, sanções, tarifas, reuniões seletivas e enquadramentos narrativos
Símbolo da intervenção: a polêmica foto do pré-candidato Flávio Bolsonaro, seu irmão e o neto do general João Figueirdo, alegamente feita ao lado de Donald Trump na Casa Branca.
Quanto mais Flavio busca apoio nos EUA, mais reforça a narrativa de soberania do governo Lula. Mas se o governo não apresentar resultados concretos na segurança pública, a extrema direita transnacional terá um terreno fértil para influenciar a disputa presidencial
Na alegoria de um desfile de carnaval deste ano na Alemanha, Donald Trump aparece dançando - no seu melhor estilo “intervencionista” - com uma Estátua da Liberdade que mais parece uma menina acuada, silenciada pela mordaça que pede “Make America Great Again”: retrato bem-humorado de um presidente que está pondo abaixo os alicerces de liberdade e democracia que sempre marcaram o discurso de todos os seus antecessores.
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Flávio Limoncic, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
A única superpotência restante no mundo demonstra não ter compromisso sequer com a construção de uma nova governança global que procure enfrentar os desafios ambientais e sanitários do presente
Poucos dias após o discurso de Mark Carney no Fórum Econômico Mundial em Davos, (foto) Donald Trump ameaçou impor tarifas de 100% sobre produtos canadenses caso o país avançasse em um acordo de livre comércio com a China.
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Edna Aparecida da Silva, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU)
Autonomia, integração e a longa história de tensões nas relações Canadá–EUA
Ao afirmar que os Estados Unidos “querem um pedaço de gelo para a proteção do mundo e que a Dinamarca se recusa a concedê-lo, Trump constrói uma narrativa de direito histórico e moral sobre a Groenlândia, instrumentalizando o passado como base para reivindicações presentes.
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Trump não anuncia uma invasão imediata, mas reafirma uma lógica de pressão contínua sobre aliados, tratados não como parceiros estratégicos, e sim como subordinados
Manifestantes protestam contra a intervenção americana na porta da embaixada dos EUA em Caracas: as ações militares na Venezuela são uma afronta à soberania do país e ao Direito Internacional, mas não podem ser analisadas isoladamente. Elas se inserem num contexto de transformação mais ampla da geopolítica contemporânea, que passou a dividir espaço com abordagens temáticas mais diversificadas.. AP Photo/Ariana Cubillos.
O ataque à Venezuela traz de volta à tona perspectivas clássicas de poder, e devem ser entendidos menos como objetivos concretos e mais como instrumentos políticos e discursivos de pressão
Imigrante venezuelana tenta exibir bandeira do país ao presidente Donald Trump, durante cerimônia em que o presidente rump virou nome de rua em Palm Beach, na Flórida: intervenção no país foi uma advertência quanto à manutenção do poder estadunidense na América Latina, e um laboratório para testar até onde alcança o “big stick” da Doutrina Donroe.
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Invasão do país sul-americano expõe de forma contundente a distância entre a retórica normativa da política externa dos EUA e a prática de um poder que se autoriza a violar, quando lhe convém, as regras elementares do direito internacional
Apoiadores do governo rasgam uma bandeira americana ao meio durante um protesto em Caracas.
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A novidade do episódio atual na Venezuela está na combinação de um gesto militar espetacular com uma narrativa de “administração” direta da “transição” no país
Lula, Trump e a implosão do multilateralismo: processo de erosão do espaço diplomático brasileiro na questão da Venezuela já havia sido exposta anteriormente. Em maio de 2025, uma operação secreta dos EUA retirou, em poucas horas, cinco opositores do governo Maduro que estavam refugiados na Embaixada da Argentina em Caracas, então sob tutela brasileira.
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Apesar de ambições declaradas de liderança regional e global, o Brasil demonstrou carecer de mecanismos eficazes de antecipação de crises, inteligência integrada e protocolos claros de resposta a eventos de alta complexidade estratégica
Já houve dias melhores: o presidente venezuelano Nicolas Maduro, à esquerda, em reunião com o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em Teerã, em 22 de outubro de 2016.
Gabinete do Líder Supremo do Irã, via AP
Talvez ninguém fora da Venezuela deva se preocupar mais com a invasão dos EUA e o sequestro do presidente Nicolás Maduro do que o líder supremo da República Islâmica do Irã, Ali Khamenei
Lula e Maduro em seu último encontro, na reunião de líderes da América do Sul em Brasília, em 2023: em um ambiente de fragmentação regional e erosão do multilateralismo, uma abordagem bilateral junto à Venezuela e aos Estados Unidos torna-se um caminho promissor.
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Avançar além da condenação retórica exigiria disposição para liderar iniciativas diplomáticas em um contexto regional fragmentado e com poucos países dispostos a criticar os Estados Unidos de forma aberta e sustentada
Responda rápido: essa foto mostra um Nicolás Maduro capturado, preso, deposto, extraditado ou sequestrado? A resposta pode depender do alinhamento político ou ideológico de quem a descreve, e achar o termo mais correto só não é tão difícil quanto saber o que esperar do “julgamento” de alguém acusado sem provas, detido por forças estrangeiras e transportado com vendas nos olhos para comparecer perante o juízo de um país que, segundo a própria ONU, o Papa e até o jornal The New York Times, agiu de forma ilegal e imprudente.
Imagem: Truth Social/@realDonaldTrump/Reprodução
Yasmim Abril M. Reis, Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas
O que está em disputa é a legitimidade sobre o destino dos países do continente e o respeito a suas soberanias e recursos naturais e energéticos
Delcy Rodríguez, presidenta interina da Venezuela. Com a estrutura de poder chavista aparentemente intacta após sua captura, crescem as possibilidades de Maduro ter sido entregue pelos militares americanos em um acordo de Rodríguez com o governo Trump.
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Derrubar Maduro em troca da manutenção do regime chavista sob o custo da entrega do petróleo para os americanos indica que os EUA não se importam com a democracia, e sim com as riquezas do país atacado
Apoiadores do presidente venezuelano Nicolás Maduro se reúnem durante uma manifestação em Caracas, em 4 de janeiro de 2026.
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Se Washington governar pela força na Venezuela, repetirá os fracassos do Afeganistão, Iraque e Líbia: o poder pode derrubar regimes, mas não pode criar autoridade política ou legitimidade.
O Secretário de Defesa - cargo agora rebatizado para “secretário de guerra”- Pete Hegseth, durante a apresentação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA.
AP Photo/Julia Demaree Nikhinson
Nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos deixa de tratar a América Latina como espaço de cooperação estratégica e passa a enquadrá-la como área direta de contenção, controle e possível intervenção
Na imagem divulgada nas redes sociais da Procuradora-Geral do governo americano Pam Bondi, um helicóptero da Marinha dos EUA intercepta petroleiro que estava a serviço da Venezuela: interesse de Trump no país parece ser mais político e econômico do que propriamente militar.
U.S. Attorney General's Office/X via AP)
Pelo menos por enquanto, as ameaças contra a Venezuela não se traduzem em preparação concreta para uma operação militar de grande escala, e soam mais como pressão política pela deposição de Maduro, com vistas aos interesses comerciais americanos no país