Antes e durante a sua realização, o governo apresentou a COP 30 como sendo a “COP da verdade”, associando-a à coragem moral e à necessidade de ação rápida. No entanto, esse discurso contrasta com a crescente apropriação da conferência por atores extrativistas, financeiros e corporativos.
Foto: Antônio Scorza / COP 30
Conferência foi operada na combinação de zonas diplomáticas, estruturas corporativas e espaços destinados à sociedade civil, em uma arquitetura que cada vez mais favorece a prevalência de interesses privados
Protesto em frente ao Congresso por demarcação de terras indígenas, em outubro de 2025: apesar de numerosa, amplamente divulgada pela mídia e apoiada por grande parte da opinião pública, a defesa do ambiente e a luta contra as mudanças climáticas ainda perde feio dentro das casas legislativas para os interesses do agronegócio e do setor de energia fóssil - encorajados pela ambiguidade do governo quanto ao tema.
AP Photo / Eraldo Peres
Estudo mostra contradições complexas: muitos brasileiros têm opinião favorável à preservação, mas compartilham conteúdos falsos sobre o clima, o que favorece os interesses do agronegócio e do setor de energia fóssil
A desinformação climática no Brasil revela-se, entre outros fatores, pela propagação da ideia de que há uma antítese entre preservação e desenvolvimento, o que alimenta questionamentos sobre a real existência e gravidade das mudanças climáticas, banaliza riscos de eventos extremos e transforma fatos científicos em tema de debate político ideológico.
Imagem gerada por IA via Envato Labs
Apesar da crescente visibilidade da crise climática, a compreensão pública sobre suas causas e consequências ainda é limitada, e está relacionada à escolaridade, à faixa etária e ao acesso à internet, revelando uma profunda desigualdade informacional
Estradas, desmatamento, gado, mineração, usinas: projetos de desenvolvimento econômico em grandes florestas como a Amazônia (foto) e a Floresta Tropical do Congo, a segunda maior do mundo, são vetores de alterações de ciclos hidrológicos, aumento de poluição, perda de biodiversidade e comércio ilegal de minérios, entre outros, que degradam a saúde do ecossistema e, consequentemente, das pessoas e animais que vivem nessas regiões.
Foto: Felipe Werneck / Ibama
Especialista em saúde ambiental explica como a falta de entendimento dos impactos de grandes projetos em curso em ecossistemas sensíveis provoca alterações que impactam diretamente a saúde pública, muitas vezes a milhares de quilômetros dali
Criação intensiva de gado numa fazenda em Goianésia, Goiás: se contarmos o desmatamento, as emissões da agricultura e o metano emitido pelo processo de fermentação entérica da digestão dos mais de 240 milhões de bois e vacas existentes no Brasil, esses três fatores emitem, juntos, cerca de ¾ de todas as emissões de gases de efeito estufa do país. Soluções que envolvam o melhor aproveitamento do uso da terra são fundamentais para reduzir estes índices.
AP Photo/Eraldo Peres
Diferente do resto do mundo, onde 75% das emissões de carbono vêm do setor de energia, no Brasil este mesmo percentual vem das emissões de metano do setor agropecuário. O setor de energia é apenas o terceiro emissor
Além de sua função como berçário natural de peixes e aves migratórias, o Pantanal Matogrossense atua como regulador do ciclo das águas e do clima regional, e tem forte conexão com a Amazônia - assim como o Cerrado.
Foto: Felipe Frazão / Wikipedia
O Brasil tem outros biomas que são também muito estratégicos, e que carecem de um olhar cuidadoso sobre os grandes desafios que todos eles enfrentam
Protestos na barqueata da Cúpula dos Povos, ocorrida no dia 12 de novembro na COP 30: diferente do que prega o bilionário filantropo, os desafios climáticos não estão diminuindo, as projeções superestimam capacidades futuras de evitar o aumento da temperatura global, e há uma falsa dicotomia entre investimentos na luta contra as mudanças climáticas e contra outros problemas globais.
Hermes Caruzo/COP30
As “verdades” de Gates são, pelo menos parcialmente, falsas, mas indicam claramente três erros estratégicos que os ocidentais cometeram recentemente sobre o assunto
Povo indígena do Alto do Rio Negro, cuja relação de suas populações com o manejo ambiental faz parte do escopo do estudo Vozes da Amazônia, que almeja valorizar o conhecimento ancestral dos povos originários como parceira fundamental da ciência ocidental na busca por soluções contra as mudanças climáticas.
Foto: Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN)
Projeto do Museu Goeldi financiado pela Iniciativa Amazônia+10 que mostrar que a tradição indígena para o uso da terra preserva a biodiversidade de forma ainda pouco conhecida pela ciência ocidental
Gado na floresta amazônica, problema que persiste há décadas e amplamente documentado como vetor de devastação ambiental e aquecimento da atmosfera: em vez de aperto na fiscalização, atividade agropecuária na região ganha incentivos que tendem a acelerar o desmatamento, a grilagem e a invasão de terras indígenas.
Foto: Eduardo Anizelli / Folhapress
Por que a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental preocupa especialistas, que chamam a atenção a consolidação de práticas permissivas já existentes. O que todos temiam está acontecendo.
Implantado a cerca de 60 quilômetros ao norte de Manaus, em área de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia ([Inpa), o AmazonFACE está em fase final de construção. A estrutura das torres já está pronta - elas terão 35 metros de altura, o suficiente para ultrapassar a copa das árvores e liberar, por meio de tubulações, ar enriquecido com dióxido de carbono para medir as reações do ecossistema às alterações na atmosfera. A expectativa é iniciar o experimento em abril de 2026, ao final da estação chuvosa, o que permitirá começar o monitoramento de CO₂ no início de um novo ciclo biológico da floresta.
Foto: Maria Clara Ferreira Guimarães / Unicamp
David M. Lapola, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Após dez anos de desenvolvimento, mega experimento de campo está quase pronto e exporá uma área de floresta a níveis elevados de CO₂, simulando um cenário previsto para o futuro
Belém tornou-se o palco simbólico de uma disputa de legitimidades: o multilateralismo tenta sobreviver em meio à fragmentação política e à financeirização da natureza.
Foto: Alex Ferro / COP30
Belém tornou-se o palco simbólico de uma disputa de legitimidades: o multilateralismo tenta sobreviver em meio à fragmentação política e à financeirização da natureza.
O Rio Paranaíba, que nasce no Cerrado de Goiás para alimentar a bacia do Rio Paraná, na Região Sul: exemplo do potencial aquífero do bioma.
Foto: André Monteiro
Sem proteção, o bioma conhecido como ‘caixa d’água do Brasil’, que abriga oito das doze maiores bacias hidrográficas do país e três grandes aquíferos, pode perder até 35% da vazão até 2050
Com florestas, savanas e campos, o Cerrado guarda uma biodiversidade imensa, mas é um dos biomas mais ameaçados do país, em razão de pressões da fronteira agrícola.
João C. F. Cardoso
Renata Trevizan, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Berço de oito das 12 regiões hidrográficas do Brasil, Cerrado é o bioma que mais perdeu área em 2024. E isso pode levar ao desaparecimento de espécies dessa que é a savana tropical mais biodiversa do mundo.
Cerrado e Amazônia são um contínuo, tanto em termos ecológicos quanto de uso e ocupação. Um não existe sem o outro. Baseados em estudos recentes que explicitam essa interdependência e sua importância no contexto de retenção do carbono, grupo de cientistas vai reforçar, durante a COP 30, a proposta de criação do Instituto Nacional do Cerrado (I.
NC). Foto: Amanda Perobelli / Reuters via Agência Brasil
Cerrado e Amazônia são um contínuo, tanto em termos ecológicos, quanto de uso e ocupação. Um não existe sem o outro
A sessão plenária geral dos líderes, que marcou a abertura da COP 30: promover uma transição energética justa, zerar o desmatamento das florestas tropicais, consolidar instrumentos eficazes de financiamento climático, implementar políticas sociais e econômicas de adaptação ao novo clima e reforçar o multilateralismo são os cinco eixos de debate essenciais para que a COP 30 corresponda às expectativas que o mundo inteiro deposita neste encontro inédito sobre o clima, no coração da Amazônia brasileira.
Foto: Alex Ferro / COP 30
A crise climática que enfrentamos é o sinal mais evidente de que a humanidade atravessa mais uma grande transição histórica. O verdadeiro desafio é repensar nossas formas de produzir, consumir e viver — e, sobretudo, redefinir o que entendemos por progresso
Quebradeira de coco de babaçu na sua lida diária: atividade é uma das mais comuns entre mulheres no universo extrativista do Pará, onde os conflitos envolvendo fazendeiros e sem-terra não recrudescem nem mesmo às vésperas da COP 30. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), nos últimos 10 anos foram registrados 393 ataques que resultaram em assassinato no campo, envolvendo principalmente os sem-terra, indígenas, posseiros, quilombolas e outros povos e comunidades tradicionais.
Foto: JC Pietro / Wikipedia
Lara Ramos, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) and Diogo Cabral, Universidade Estadual do Maranhão
Para além das medidas de emissão de carbono, dados de conflitos no campo precisam ganhar destaque no debate climático. Nos últimos 10 anos foram registrados 393 ataques que resultaram em assassinatos de sem-terra, indígenas, posseiros, quilombolas e outros povos
Avião cargueiro do Pelotão Especial de Fronteira Surucucu sobrevoa a Terra Indígena Yanomami, em Roraima: nas últimas décadas, setores militares passaram a tratar as terras indígenas como potenciais ameaças à segurança nacional, argumentando que sua extensão e autonomia poderiam comprometer a integridade territorial do país.
Foto: Lalo de Almeida / Folhapress
A questão indígena na Amazônia está no centro das disputas sobre território e soberania. A floresta, tradicionalmente tratada pelo Estado como uma fronteira a ser vigiada, é também o espaço de coexistência de centenas de povos
Trecho da Volta Grande do Xingu, na Terra Indígena Paquiçamba, próximo da barragem de Belo Monte: a construção da hidrelétrica e a consequente redução do volume de água nesse trecho do rio impactaram gravemente o meio ambiente a o modo de vida das populações tradicionais localizadas nessa região.
Foto: Lalo de Almeida / Folhapress
Investimentos em mitigação climática às vezes acabam produzindo efeitos adversos sobre as populações amazônicas. A sustentabilidade local não pode ser alcançada através de mecanismos de mercado que excluam os povos que criaram e mantiveram a diversidade ecológica regional
Campo de soja avança sobre a floresta nativa, próximo à rodovia Curuá-Una, no Baixo Tapajós, oeste do Pará: estudo realizado pelo autor mostra que o glifosato - herbicida amplamente utilizado nas plantações - produz uma forma lenta de violência química que asfixia pessoas, ecossistemas e modos de vida. Isso força comunidades ribeirinhas a partirem e abre espaço para que a soja avance, causando danos também aos indígenas e quilombolas.
Foto: Bruno Kelly
Fábio Zuker, Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS)
Estudo sustenta que o uso do glifosato produz uma forma lenta de violência química que asfixia pessoas, ecossistemas e modos de vida. Essa violência força comunidades ribeirinhas a partirem e abre espaço para que a soja avance.
Reunião de líderes indígenas Ashaninka do Alto Juruá (Brasil) e do Peru, financiado pelo Fundo Amazônia. Antes presos a sistemas de dívida e dependência, e resistindo durante séculos ao avanço de forasteiros, os Ashaninka do Brasil agora estão entre os líderes ambientais do mundo. Em novembro deste ano, eles chegarão à COP 30 em Belém não como vítimas da história, mas como seus sobreviventes e visionários. Eles trazem consigo as vozes da floresta, a memória da luta e um apelo à mudança.
Foto de Cristiana Bartazoni
Os povos indígenas desempenham um papel crucial na adaptação climática, na conservação da biodiversidade e na proteção ambiental. Belém oferece uma oportunidade histórica de tornar esta conferência climática uma “COP indígena”.
Doutor em Ciências da Engenharia Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Ciências Pesqueiras, Universidade Federal do Amazonas (UFAM)