Com apenas 3% de sua área sob proteção oficial, o Pampa é o bioma mais ameaçado de extinção do Brasil. Um perigo real, imediato e ocultado por uma profunda crise de visibilidade ofuscada pela desinformação incentivada pelos interesses do agronegócio.
Foto: Fernando Bozza / Wikipedia
Desinformação ambiental, que evoluiu do negacionismo explícito para táticas mais sutis e aprimoradas, é vetor central da degradação do Pampa, bioma que, proporcionalmente, mais perdeu cobertura natural nas últimas décadas
Transformar a floresta em pé em um ativo econômico mais valioso do que sua derrubada é uma das estratégias possíveis para reforçar a preservação. Uma possibilidade é criar um Crédito de Conservação, vinculado ao carbono estocado na floresta e aos serviços ambientais que ela presta — regulação climática, biodiversidade, recursos hídricos etc. E isso não está mais só no campo da teoria: a Unesp já desenvolveu uma metodologia específica para quantificação desses serviços ambientais.
Foto: Igor Tichonow / Envato
Iraê Guerrini, Universidade Estadual Paulista (Unesp)
Derrubar floresta vale mais que mantê-la. Porém, se o hectare de floresta em pé valer mais do que o de soja ou gado, a lógica se inverte
Hydrophilidae, um dos insetos que faz parte do jogo de cartas Quem sou eu? Insetos aquáticos, do Laboratório de Citaxonomia e Insetos Aquáticos (LACIA), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)
LACIA
No estudo dos insetos aquáticos, não basta gerar ciência dentro dos laboratórios; é preciso levá-la para quem convive diretamente com os insetos e pode de fato preservá-los
Pesquisa mostra que ajuda internacional privilegia países de renda média e ignora os mais vulneráveis: um novo modelo de distribuição pode ampliar impactos positivos e reduzir gastos.
Reprodução / ONU website
Pesquisa mostra que ajuda internacional privilegia países de renda média e ignora os mais vulneráveis; novo modelo de distribuição pode ampliar impactos positivos e reduzir gastos
Área de floresta derrubada e queimada na zona rural do município de Apuí, Amazonas: nova ferramenta de IA, batizada de ‘Deforestation Prediction System’, foi concebida por cinetistas da PUC-Rio e é usada pelo Ibama para apoiar decisões estratégicas de fiscalização e prevenção, aumentando a eficiência das operações e reduzindo desperdícios de recursos.
Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/10/08/2020
Ferramenta foi desenvolvida por equipe da PUC-Rio para apoiar decisões estratégicas do Ibama e municípios da região.
Grupo de indígenas protestando por uma maior participação dos povos da floresta nas discussões sobre financiamento climático na COP da Amazônia: influência do pensamento colonial em diferentes setores vem sendo cada vez discutido na busca por uma transformação cultural, social e econômica mais inclusiva, mais decolonial.
AP Photo/Eraldo Peres
A influência do pensamento colonial em diferentes setores e processos vem sendo cada vez discutido na busca por uma transformação cultural, social e econômica decolonial. Busca-se, portanto, uma sociedade mais justa, simétrica e inclusiva.
No contexto de adversidade que paira sobre a realização da COP 30 na Amazônia reside uma grande oportunidade: mostrar ao mundo que o Brasil não apenas possui soluções reais para a crise climática, mas que já as está implementando.
Foto: Instituto Jornada da AMAZÔNIA
Empresas que investem em desenvolvimento sustentável no Brasil querem ajudar a transformar COP 30, para além de discussões diplomáticas e debates sobre financiamentos, num catalisador de ações coletivas, inovação e justiça climática
O indígena brasileiro Jonas Reis posa para uma foto enquanto participa de um protesto durante a quinta Cúpula Presidencial da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.
AP Photo/Fernando Vergara
O encontro deixou claro que os interesses do Brasil em relação à manutenção da exploração de óleo e gás falam mais alto, tornando a próxima COP 30 um teste decisivo para a credibilidade dos compromissos assumidos em defesa da Amazônia
Vista aérea do Parque da Cidade, onde será realizada a COP30. Países têm pressionado o Brasil a transferir a conferência climática da ONU de Belém para outra cidade em razão dos valores exorbitantes cobrados pelos hotéis da capital paraense.
Alessandro Falco/Folhapress
Preço de hotéis pode levar a esvaziamento do evento; mas presença significativa de países e delegações é fundamental para legitimar as discussões da conferência
Durante e Rio 92, foram lançadas em escala mundial as bases para os principais acordos ambientais internacionais contra o aquecimento global e suas consequências, incluindo a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que originou as próprias COPs.
Imagem: Instituto Social Ambiental (ISA)
A necessidade de alinhar o sistema financeiro global às metas de clima é muito urgente. Dados chocantes mostram que, em 2023, os 65 maiores bancos do mundo destinaram US$ 900 bilhões aos combustíveis fósseis
Macaco caiarara (Cebus kaapori), nativo da Amazônia brasileira: pode perder 100% do seu habitat, especialmente devido à combinação dos impactos das mudanças climáticas e do desmatamento.
Foto: Ricardo Ferreira Esteves / iNaturalist
A perda de aves e primatas leva à diminuição da diversidade de plantas da Amazônia, o que impacta os serviços ecológicos de controle do carbono, regulação do ciclo da água e fornecimento de alimentos e recursos para outras espécies da floresta
Na comunidade de pesca do maretório de Jubim, na Ilha de Marajó, no Pará, a rotina de pesca em integração com todos os elementos da natureza está sob ameaça da construção de grandes portos, da exploração de petróleo, de grandes rotas de navegação e do cercamento de áreas de extrativismo.
Foto: Lara Sartorio/Projeto Maretórios
Projeto “Maretórios Amazônicos” agrega diferentes centros de pesquisa para avaliar as ameaças geradas pelo modelo de desenvolvimento implementado na zona costeira paraense sobre a sociobiodiversidade da comunidade tradicional de pesca de Jubim
As comunidades ribeirinhas são vistas como fonte de turismo ou de comércio de produtos típicos, como o açaí, mas as populações locais não participam das tomadas de decisão sobre os territórios.
Foto disponibilizada pelo autor
Depoimento de um ribeirinho e mestrando em Antropologia mostra como o olhar do pesquisador e o conhecimento tradicional podem se unir na busca de soluções para os problemas ambientais da Amazônia
Ativista na porta do tribunal alemão em que o caso do fazendeiro peruano Saúl Luciano Lliuya contra a gigante europeia da energia RWE acaba de ser julgado: infelizmente, o pleito do fazendeiro foi rejeitado, mas o caso entrou para a história e servirá de precedente na defesa dos direitos das populações mais afetadas pelas mudanças climáticas.
AP Photo/Martin Meissner
O termo justiça climática se refere ao desigual e desproporcional impacto do aquecimento global sobre grupos mais vulneráveis, especialmente populações pobres e marginalizados
Apesar de seu potencial de mobilização, é preciso reconhecer que a COP da Amazônia, assim como todas as anteriores, terá seus limites de influência, dizem os pesquisadores do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas. Não se deve esperar que a conferência resolva todos os impasses ou execute consensos globais de forma imediata.
Foto: Roberto Stuckert Filho / Presidência da República
Lincoln Muniz Alves, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima and Inamara Mélo, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
Respostas pontuais a desastres, após sua ocorrência, são insuficientes diante da intensificação dos riscos climáticos. É preciso, portanto, investir em soluções de longo prazo
Mães ribeirinhas caminham pelo leito seco do Amazonas para deixar seus filhos na escola, na região da fronteira entre o Brasil e a Colômbia: ao descaso dos causadores das mudanças climáticas com os efeitos deste problema sobre a vida de populações menos favorecidas que vivem nas regiões mais afetadas dá-se o nome de racismo climático.
AP Photo/Ivan Valencia
O Norte Global, responsável pela maior parte da emissão de GEE na atmosfera, deve se comprometer com a implantação de infraestrutura de mitigação e adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento
O vasto potencial das Soluções Baseadas na Natureza se manifesta em diversas áreas. Na agricultura, elas fortalecem a segurança alimentar, enquanto que no reflorestamento utilizam a capacidade natural das florestas para armazenar carbono e preservar a biodiversidade, ao mesmo tempo em que mitigam os impactos climáticos.
Business Wire / AP Photos
Em tempos de mudanças climáticas, a inovação é crucial na busca por respostas aos muitos desafios que o planeta enfrenta, como as mudanças climáticas, a insegurança alimentar ou a perda de biodiversidade.
Na imagem publicitária do Governo do Pará, o governador Helder Barbalho aparece visitando o novo Viaduto Independência, que faz parte do conjunto de intervenções urbanas para a COP: estratégia de obras pensadas para melhorar o fluxo de carros pode estar sendo contraditória com a agenda global para reduzir os impactos das mudanças climáticas.
Com recursos fartos para investir em infraestrutura, Belém optou por obras que vendem a cidade a quem por pagar por seus serviços, deixando de lado mudanças que poderiam diminuir a desigualdade social
A sete meses da COP 30, obras de infraestrutura à toque de caixa se espalham por Belém, numa corrida contra o tempo para receber chefes de Estado, cientistas, ativistas e jornalistas do mundo todo. Mas outras cidades-sede sofreram com o mesmo problema no passado, e uma COP no coração da Amazônia é oportunidade inédita para que o encontro tenha relevância real na luta contra os efeitos das mudanças climáticas.
AP Photo/Jorge Saenz
Próxima Conferência do Clima sofre críticas pela falta de estrutura de Belém, mas será a melhor chance da história pra que o mundo conheça melhor e valorize essa região fundamental para o equilíbrio ambiental da Terra
Indígenas comemoram a revogação da Lei Estadual que abolia as garantias de acesso ao Ensino Médio presencial em tribos e comunidades ribeirinhas do interior do estado. Exclusão de direitos é uma ameaça constante nas relações entre o poder público do Pará e os povos originários, e a COP 30 é vista por estes como uma oportunidade para alertar o mundo sobre a questão.
Foto: Oswaldo Forte/Fotoarena/Folhapress
A COP 30, que será realizada em Belém este ano, representa uma oportunidade única para que grupos como os povos indígenas da Amazônia possam ser ouvidos
Doutor em Ciências da Engenharia Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Ciências Pesqueiras, Universidade Federal do Amazonas (UFAM)