O primeiro-ministro indiano Narendra Modi, à direita, e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian se encontram à margem da Cúpula do BRICS em Nova Délhi, na Índia, na sexta-feira, 11 de setembro de 2026.
Foto: Ministério das Relações Exteriores da Índia, via AP
Mais do que sobreviver aos choques, BRICS deve aumentar a capacidade dos países e povos do Sul Global de decidir seus próprios caminhos de desenvolvimento
China, Índia ou Brasil podem integrar o chamado Sul Global, mas suas empresas podem ocupar posições econômicas muito distintas das comunidades, trabalhadores e mesmo dos Estados que recebem seus investimentos.
Imagem: Port Calls Ásia/Unsplash
Ana Saggioro Garcia, PUC-Rio; Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Hoje um dos principais atores das mudanças em curso na ordem internacional, o BRICS defende reformas na governança global e questionam a concentração histórica de poder nos Estados Unidos e na Europa
Nova iniciativa permite aos consumidores utilizar aplicações nacionais, como o o chinês Alipay, para efetuar pagamentos transfronteiriços – apoiando os esforços de Pequim para expandir as ligações financeiras regionais e incentivando grupos como o BRICS a acelerar suas próprias alternativas ao dólar.
Foto: Agência Xinhua
Países emergentes começam a construir canais práticos para depender menos do dólar. A desdolarização surge no celular, no comércio, no turismo, nos pagamentos instantâneos e na conexão entre sistemas nacionais
Sede da OMS, durante a última Assembleia Mundial da Saúde, em 2025: “o mundo esteve à beira de uma falha moral catastrófica”, disse o diretor geral da entidade, Tedros Adhanom. E isso reacendeu debates sobre equidade e multilateralismo.
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Uma aliança entre países como Brasil, Índia e África do Sul começa a articular ações integradas para enfrentar condições de saúde diretamente relacionadas às desigualdades sociais, ambientais e econômicas
Uma coluna de fimnaça sobe no céu do centro de Teerã, após a queda de mais um míssil na guerra de Israel e EUA contra o país. Para explicar por que o BRICS - grupo que defende o direito internacional, surgiu para restringir a hegemonia estadunidense no mundo e tem o Irã como país-membro - ainda não emitiu uma declaração conjunta sobre os ataques, é preciso compreender como o BRICS funciona e como se dá o seu processo de expansão.
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Grupo - que em 2023 se expadiu e incluiu o Irã- ainda não emitiu sequer uma manifestação conjunta sobre o conflito
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, durante a reunião de cúpula do BRICS, em julho de 2025 no Rio de Janeiro: entrada do país do Oriente Médio no grupo é estratégia multilateralista defendida pelo Brasil, que não teria nada a ganhar com um eventual conflito militar com os EUA.
AP Photo / Eraldo Peres
A presença do Irã no BRICS Plus reforça a ambição do grupo de atuar como espaço de coordenação política fora do eixo euro-atlântico. Ataque americano ao Irã colocaria essa estratégia a perder
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi (à esquerda), durante a reunião de cúpula do BRICS, em julho de 2025 no Rio de Janeiro: entrada do país do Oriente Médio no grupo é estratégia multilateralista defendida pelo Brasil, que não teria nada a ganhar com um eventual conflito militar com os EUA.
AP Photo / Eraldo Peres
A presença do Irã no BRICS Plus reforça a ambição do grupo de atuar como espaço de coordenação política fora do eixo euro-atlântico. Ataque americano ao Irã colocaria essa estratégia a perder
Com a diminuição da centralidade das potências ocidentais e a ampliação dos polos de influência, o multilateralismo se transforma e da oportunidades a países do Sul Global, especialmente os da América do Sul.
Foto: Nações Unidas
Ao articular uma cooperação pragmática com países como Chile, Uruguai, Bolívia, Argentina, Colômbia e Peru, o país poderia estruturar cadeias regionais de valor, fortalecer a resiliência frente à pressão das grandes potências e aumentar sua influência em temas vitais para o atual momento, como a transição energética, os semicondutores e a inteligência artificial
Considerado um dos encontros internacionais mais importantes de 2025, a realização da cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) reuniu líderes de vinte países, entre eles Xi Jinping, Vladimir Putin e Narendra Modi, que fazem parte do BRICS. O evento projetou uma visão alternativa da ordem internacional, menos dependente dos EUA e mais ancorada na Eurasia. A questão que surge é se existe espaço para o Brasil nessa dinâmica.
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A cúpula de Tianjin mostra que o eixo do poder mundial se desloca cada vez mais para Eurásia. Brasil pode ampliar sua inserção internacional, mas precisa prudência diante do cenário de sanções que tornaram tarifas em armas da política global
Ao comentar os assassinatos em Manhattan, Donald Trump classificou o atirador como um “lunático enlouquecido” e descreveu o ataque como um ato “sem sentido”, de “pura maldade”. Mas o que Trump tenta colocar à distância funciona como uma metáfora perturbadora da política que ele próprio conduz, com critérios duvidosos para ameaçar países aliados com tarifas e sanções.
Ilustração gerada por IA no Envato Labs
Os ‘disparos’ de Trump tendem a ultrapassar os alvos primários: podem desorganizar cadeias produtivas das quais os próprios EUA dependem, pressionar a inflação e alimentar a instabilidade nos mercados globais
O engajamento dos países do BRICS no processo de desdolarização de parte da economia mundial - que começa a provocar reações pesadas dos EUA - visa proteger as economias destes países da vulnerabilidade gerada pela dependência de uma moeda que começa a sofrer instabilidade, causada principalmente pela política econômica cada vez mais imprevisível do atual governo dos EUA.
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A desdolarização global é um fenômeno lento e gradual. O engajamento dos países do BRICS nesse processo visa proteger suas economias da vulnerabilidade gerada pela dependência de uma moeda que começa a sofrer instabilidade causada pela política econômica dos EUA
Jovens satirizaram a cúpula, trocando memes que exploravam estereótipos culturais, diferenças linguísticas e desafios diplomáticos. O BRICS tornou-se um “evento global” tanto na esfera política como na cultura digital transnacional.
Xi Jinping e Vladimir Putin durante a Cúpula do BRICS de 2024, em Kazan: a ausência dos presidentes da Rússia e da China no encontro deste ano no Brasil reflete indiretamente uma redução da relevância do bloco no atual contexto geopolítico internacional. No Rio, nenhum acordo multilateral relevante será assinado.
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A presidência brasileira do BRICS preparou uma Cúpula modesta em acordos multilaterais. Ao longo do ano, apresentou eventos reduzidos no escopo da agenda institucional, e poucas atividades no contexto da Diplomacia Pública
No Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), tudo pronto para o início das reuniões oficiais do Encontro de Cúpula do BRICS, que terá debates sobre a articulação entre saúde e desenvolvimento como um dos assuntos centrais do encontro.
Foto: Rafa Neddermeyer/BRICS Brasil/PR
Ao longo do ano, a presidência brasileira tem elegido a cooperação global em saúde uma das suas seis prioridades à frente do grupo
Durante s Cúpula do BRICS no Rio, ocorrerá também a décima reunião anual do Novo Banco de Desenvolvimento, sob a presidência de Dilma Roussef: banco vem ampliando parcerias com bancos no Brasil para impulsionar o financiamento verde com custos reduzidos e melhores condições às economias emergentes.
Foto: Gabriela Biló/Folhapress
Com Dilma Roussef, o NDB ampliou seus membros e estabeleceu parcerias com bancos no Brasil, para impulsionar o financiamento verde com custos reduzidos e melhores condições às economias emergentes e aos países em desenvolvimento
Evento terá debates e demandas de movimentos e organizações sociais de países membros em temáticas diversas, entre elas a governança da inteligência artificial e do papel das tecnologias digitais na construção de uma sociedade mais justa.
Imagem: Divulgação / BRICS Brasil
Evento terá debates e demandas de movimentos e organizações sociais de países membros em temáticas diversas, entre elas a governança da inteligência artificial e do papel das tecnologias digitais na construção de uma sociedade mais justa
Reunião dos ministros das Relações Exteriores do BRICS no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, em junho de 2025: apesar da inflexão para a geopolítica, grupo continua a desempenhar papel estratégico na promoção de reformas financeiras estruturais, em articulação com outros países em desenvolvimento.
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Agenda reformista do grupo foi perdendo força à medida que as tensões internacionais se intensificaram. Por outro lado, grupo se transforma em coalização cada vez mais poderosa
Bandeiras dos países-membros do BRICS no salão azul do Senado Federal, durante o Fórum Parlamentar do BRICS realizado no começo de junho em Brasília.
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Alcançar a justiça climática exige enfrentar desigualdades estruturais e criar mecanismos de reparação, redistribuição e acesso ao financiamento para a justiça climática
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Rasoul Mohajer, posam para uma foto no encontro do BRICS no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, em 28 de abril de 2025. A manifestação oficial brasileira evita qualquer gesto que possa ser interpretado como escolha. Mas, diante da gravidade do ataque, a omissão de gestos concretos já constitui um posicionamento.
AP Photo/Bruna Prado
O governo brasileiro, mais uma vez, opta por uma retórica que preserva sua tradição de neutralidade, mas ignora o novo cenário que ele próprio ajudou a construir ao acolher o Irã no BRICS.
Ministra da Saúde, de janeiro de 2023 a fevereiro de 2025; presidente da Fiocruz, de 2017 a 2022, e pesquisadora titular da Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)