“Colonialismo de dados”: A colaboração direta entre a administração Trump e os titãs da tecnologia já foi descrita como um “sistema de negacionismo tecnorregulatório”. A expressão deixa claro que a estratégia não apenas despreza as leis democráticas, mas também implementa outros tipos de leis, orientadas pelas lógicas embutidas nas tecnologias.
Imagem gerada por IA, via EnvatoLabs
Plataformas americanas usam Washington para garantir ganhos e receitas no exterior. E o Brasil mergulha em uma paralisia regulatória e tecnológica que põe em risco sua capacidade de moldar políticas públicas
Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezos (Amazon), Sundar Pichai (Google e Alphabet) e Elon Musk (X, Tesla e SpaceX) na já histórica foto da posse do presidente Donald Trump, em janeiro de 2025: com o republicano no poder, o lobby das big techs escancarou seus interesses e influência econômica sobre as políticas interna e externa do governo estadunidense.
Poder de barganha das Big Techs é ainda mais significativo em regiões menos desenvolvidas do mundo. E em lugares como o Brasil, onde o lobby não é regulamentado, fica difícil rastrear o lobby e medir o quanto ele influencia nas leis aprovadas no Congresso
Manifestantes queimam boneco de Trump em São Paulo, na quinta-feira 10, em protesto contra o aumento de tarifas sobre produtos brasileiros. Carta de Trump deve ser lida também como uma forma de pressão econômica a serviço dos interesses das Big Techs.
AP Photo/Andre Penner
O julgamento do Artigo 19 do Marco Civil da Internet, as propostas de regulamentação da IA e as minutas de projetos que definem responsabilidades das plataformas digitais colocam o Brasil na vanguarda de uma regulação digital democrática — e isso não agrada nem um pouco às Big Techs.
No STF, o julgamento da constitucionalidade do Artigo 19 do Marco Civil da Internet revisitou e alterou o paradigma, defendido pelas Big Techs, de que as plataformas digitais apenas hospedam as opiniões de terceiros, e não são responsáveis por elas.
AP Photo / Eraldo Peres
Arthur Coelho Bezerra, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) and David Nemer, University of Virginia
A flexibilização do Artigo 19 não é um ataque à liberdade de expressão, como insistem as plataformas. O objetivo não é censurar, mas sim estabelecer um regime de responsabilidade proporcional
Relação do Brasil com as Big Techs detentoras das tecnologias de IA está fazendo o país pagar caro por sistemas que não desenvolvemos, que não controlamos e que, muitas vezes, não respondem aos nossos interesses sociais, econômicos ou estratégicos.
Imagem: Envato AI
Ergon Cugler, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict)
Plataformas como OpenAI, Meta, Google e Microsoft tomam decisões constantes sobre o que seus sistemas podem ou não fazer, com base em critérios opacos
Com mochilas infantis representando o perigo da circulação de conteúdos de ódio entre crianças, ativista protesta em frente ao Congresso Nacional, em dezembro de 2024. Ele pedia a aprovação da Lei das Fake News, que naufragou e agora corre o risco de se transformar em uma legislação inócua.
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
Marcelo Träsel, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Se aprovado com o texto atual, o Projeto de Lei 4691/2024 será pouco ou nada útil no combate às fake news
Donald Trump e seu chefe do Departamento de Eficiência Governamental, o empresário Elon Musk, concedem entrevista ao pool de jornalistas da Casa Branca a bordo de um Tesla: reduzir o significado da influência de Musk e outros gigantes da tecnologia sobre Trump a meras imposições unilaterais de um lado ou de outro seria simplificar demais a sinergia entre as Big Techs, o governo e o próprio Estado.
Foto: Pool via AP
Reduzir a influência das Big Techs sobre o governo americano a meras imposições unilaterais de um lado ou de outro seria simplificar demais a complexa sinergia entre as Big Techs, o governo Trump e o próprio Estado
Protesto contra a Meta em Londres, no ano passado. No Brasil, a crítica do poder público à Meta foi certa e líquida – e devidamente repercutida pelas mídias industriais, que de qualquer forma já tinham outro motivo para criticar as mudanças. Para o autor, a nova e inesperada convergência entre jornalismo e poder público contra a Meta bem que poderia contribuir para ressuscitar o PL 2630.
AP Photo/Kirsty Wigglesworth
A sobrevivência do jornalismo industrial depende da manutenção do valor de seus padrões éticos de apuração, que tendem a perder força em um cenário no qual consumidores de desinformação se multiplicam.