A invasão do Congresso Nacional, em 8 de janeiro de 2023: o sentimento de frustração e falta de pertencimento que estimula esse comportamento é semelhante ao que motiva atitudes misóginas.
AP Photo/Eraldo Peres
Entender esse processo não é desculpar o comportamento: é reconhecer que, para desarmá-lo, será preciso ir além da verificação de fatos e chegar à raiz do sentimento de exclusão coletiva que o sustenta
A poucos dias do início da campanha, funcionários do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul fizeram uma demonstração pública sobre o funcionamento e a inviolabilidade das urnas eletrônicas, que seguem entre as principais vítimas de campanhas de desinformação e descredibilização do processo eleitoral espalhadas pelas redes sociais.
Foto: Guilherme Lund/TRE-RS
O uso cada vez maior da IA generativa fez emergir novos riscos eleitorais que vão além da criação de peças sintéticas e falsas, e também alcançam a escolha de candidaturas, com possibilidade de ranqueamento e recomendação de voto
A exploração da atenção do público sempre foi uma mercadoria para os meios de comunicação. A desinformação atual não prospera apenas porque desperta emoções. Ela também é favorecida pelo modo como a publicidade financia a informação na internet.
Ilustração: FTD Educação
A desinformação não prospera apenas porque desperta emoções. Ela também é favorecida pelo modo como a publicidade financia a informação na internet
Em março de 2026 o TSE aprovou 14 resoluções destinadas a orientar as eleições gerais deste ano. Entre os temas centrais estão o uso de inteligência artificial, a propaganda eleitoral em plataformas digitais e a responsabilidade das Big Techs na moderação de conteúdo. A pergunta que se impõe é: o novo marco regulatório é capaz de enfrentar os mecanismos de contágio desinformativo que se consolidaram em 2022?
Foto: José Cruz/Agência Brasil
As resoluções aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral representam um esforço institucional relevante, ainda que a velocidade do contágio da desinformação nas redes sociais tenda sempre a superar a capacidade de resposta institucional
Os resultados do levantamento revelaram baixa transparência em praticamente todos os aspectos avaliados: dados incompletos ou ausentes, falhas nas bibliotecas de anúncios, pouca clareza sobre financiamento e segmentação e ausência de padrões que permitam comparações consistentes entre as plataformas.
Imagem: Eleven Labs
R. Marie Santini, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Adriano Belisário, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Bruno Mattos, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Danielle Pinho, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Debora Salles, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), and Hugo Leal, University of Cambridge
Questão é ainda pior no Brasil, onde o debate regulatório sobre elas permanece incipiente
à resposta à pergunta acima deveria ser: a todos. Mas desde o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, vestir a camisa amarela da seleção brasileira ou sair às ruas coma bandeira nacional tornou-se equivalente a declarar posição ideológica alinhada a um grupo que, na prática, usa estes símbolos para legitimar projetos de poder político e eleitoral.
Às vésperas de mais uma campanha eleitoral, grupos políticos antagoônicos voltam a reivindicar para si as cores da bandeira brasileira
Mais do que um denunciador de fake news, o jornalismo de verificação é fundamental nos mecanismos da sociedade de resposta à desinformação, que deve incluir também educação midiática, regulação, responsabilização de plataformas e políticas públicas de comunicação.
Imagem: Envato
Taís Seibt, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)
Mais do que um denunciador de fake news, o jornalismo de verificação é fundamental nos mecanismos da sociedade de resposta à desinformação
Agentes federais de imigração prendem mais um morador durante a escalada de repressão que ocorre desde o começo de 2026 em Minneapolis: a percepção falsa de que imigrantes - sobretudo latino-americanos - são responsáveis pelo crescimento das taxas de criminalidade e por uma suposta periculosidade social sustenta uma retórica securitária que legitima investimentos massivos em aparatos tecnológicos de vigilância e controle fronteiriço.
Lauro Accioly Filho, Universidade Estadual Paulista (Unesp)
A narrativa de que imigrantes irregulares cometem mais crimes não encontra respaldo nos dados estatísticos de criminalidade dos EUA. Ao contrário, os dados mostram que esse grupo apresenta índices de envolvimento criminal inferiores aos da população nativa
Trump, Robert F. Kennedy Jr. e o administrador da Medicaid, Mehmet Oz, anunciam a falácia do Tylenol: atitude reforça globalmente a perigosa lógica patologizante em relação às deficiências, problema que já encontra ressonância no Brasil.
Anúncio do presidente americano não é Ciência. Ao chamar uma simples associação de causalidade direta, ele promove um espetáculo global de medo e preconceito contra uma condição que sequer é uma doença, tampouco precisa de cura
Num contexto de desinformação e fake news produzidas nas sombras, o discurso de censura e perseguição contra extremistas como Jair Bolsonaro começa a fazer sentido para parte da opinião pública. Recente pesquisa do Datafolha, divulgada dias antes da ocupação do Congresso por políticos de extrema-direita, mostrou que 45% dos brasileiros acreditam que o ex-presidente está sendo perseguido e injustiçado.
AP Photo/ Luis Nova
Em um contexto de desinformação, o discurso de censura e perseguição começa a fazer sentido, minando as instituições democráticas e favorecendo forças políticas interessadas em tomar poder sem respeito às normas do Estado de Direito.
Líder indígena Yanomami ergue uma cópia da Constituição brasileira durante um protesto em Brasília contra a violência e a destruição ambiental provocada por grileiros e garimpeiros que invadem suas terras.
(AP Photo/Eraldo Peres)
Desinformação transforma os povos indígenas em alvo de ataques nas redes sociais, em discursos políticos e em veículos jornalísticos
As redes sociais coletam dados da nossa navegação como intuito principal de refinar um perfil comercializável de cada um de nós. Quem está nesses bancos de dados nem faz ideia que está sendo comercializado como produto.
Foto: Envato Labs
Beto Vasques, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)
Decisão do Supremo Tribunal Federal aproxima o Brasil de legislações internacionais e obriga redes sociais a removerem conteúdos ilícitos de forma proativa. Congresso, no entanto, se mantém ausente do debate
Na última Marcha para Jesus, em São Paulo, faixas que mesclam as bandeiras de Brasil e Israel com o Leão de Judá, símbolo do sionismo, eram numerosas na multidão presente ao evento evangélico.
Foto: Eduardo Knapp/Folhapress
Para muitos evangélicos, o Estado de Israel é mais do que uma nação: é o cenário do retorno messiânico. Mas essa defesa não se baseia em uma aproximação com o judaísmo como religião, e sim em uma leitura específica da Bíblia que instrumentaliza Israel como peça-chave de um futuro apocalíptico
Marisa Maiô: resultados impressionantes gerados por novas ferramentas de Inteligência Artificial já provocam controvérsia no mercado do audiovisual e também na publicidade. Personagem, surgida há menos de um mês, já foi utilizada por uma rede varejista numa campanha comercial. Sem remuneração ao seu criador.
Imagem: Reprodução Veo 3
O vídeo de Marisa Maiô representa um marco ético em nossa relação com conteúdos gerados por IA. Quando o absurdo se apresenta de forma tão convincente e frequente ele deixa de causar estranhamento e passa a ser entendido como parte usual da subjetividade.
Com mochilas infantis representando o perigo da circulação de conteúdos de ódio entre crianças, ativista protesta em frente ao Congresso Nacional, em dezembro de 2024. Ele pedia a aprovação da Lei das Fake News, que naufragou e agora corre o risco de se transformar em uma legislação inócua.
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
Marcelo Träsel, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Se aprovado com o texto atual, o Projeto de Lei 4691/2024 será pouco ou nada útil no combate às fake news
Centenas de covas rasas aguardando vítimas da Covid num cemitério de São Paulo, em outubro de 2020: em menos de dois anos, pandemia matou mais de 700 mil pessoas no Brasil.
Foto: Lalo de Almeida/Folhapress
Pesquisadores estudaram as estratégias de combate à fake news de duas agências digitais em mais de 650 checagens durante a primeira onde de covid, em 2020
De acordo com o Relatório de Riscos Globais 2025 do Fórum Econômico Mundial,o compartilhamento de informações falsas, enganosas ou retiradas de contexto, com ou sem intenção de prejudicar alguém, lidera um conjunto de 33 riscos à humanidade no curto prazo, isto é, nos próximos dois anos. Como número um da lista de problemáticas imediatas, a desordem informacional desbanca ameaças como eventos climáticos extremos, conflitos armados entre países, polarização social, cyber espionagem e poluição.
Foto: Unsplash
Marco Schneider, Universidade Federal Fluminense (UFF); Myllena Diniz, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), and Taís Seibt, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)
Compartilhamento de informações falsas, enganosas ou retiradas de contexto, com ou sem intenção de prejudicar alguém, lidera um conjunto de 33 riscos que ameaçam o mundo nos próximos dois anos
Cartazes feitos por estudantes sobre notícias falsas em urnas eletrônicas durante as eleições de 2022. Parceria entre o TSE e a Meta visava conter a desinformação eleitoral por meio da análise de denúncias e medidas como remoção de conteúdos nocivos. No entanto, parcelas significativas de publicações denunciadas e classificadas como desinformação não foram rotuladas nem removidas.
AP Photo/Eraldo Peres
R. Marie Santini, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) and Debora Salles, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
As mudanças anunciadas reforçam o lugar de monopólio da censura dos conteúdos pela própria empresa Meta, que passa a ser o único árbitro do que os usuários irão ver ou não em suas plataformas, porém usando a retórica da liberdade para manter sua imunidade perante as leis locais.
Os perigos da ciência de baixa qualidade: artigos que ligam as vacinas contra a COVID-19 ao desenvolvimento de várias doenças continuam sendo publicados, o que abala a confiança pública na vacinação, já afetada pela grande quantidade de desinformação intencional presente nas redes sociais.
Foto: The Conversation US, Shutterstock
Professora no PPG de Comunicação do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e na graduação em Jornalismo, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)