A pergunta não é só quem vencerá em outubro, mas o quanto o vencedor conseguirá alterar tendências já consolidadas. A dependência comercial da China, a busca por parceiros alternativos de defesa e o protagonismo do Brasil no Sul Global são condições estruturais, não escolhas ideológicas passageiras.
Foto: Xenïa Antunes / Wikipedia
Alberto Maresca, Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP); Fundação Getulio Vargas (FGV); United Nations University; Universidade de São Paulo (USP)
A pergunta não é só quem vencerá em outubro, mas o quanto o vencedor conseguirá alterar tendências já consolidadas. A dependência comercial da China, a busca por parceiros alternativos de defesa e o protagonismo do Brasil no Sul Global são condições estruturais, não escolhas ideológicas passageiras
O Tratado de Itaipu, assinado em 1973, estabeleceu que Brasil e Paraguai teriam direito à metade da energia produzida pela usina binacional. Como a demanda brasileira era muito superior à do Paraguai, o Brasil passou a consumir essa sobra, pagando uma remuneração que o país vizinho contestou por décadas, até conseguir renegociar.
Foto: International Hydropower Association (IHA)
Pesquisadores examinaram a negociação que levou o Brasil a aceitar triplicar a remuneração paga pela energia paraguaia em 2009
A crescente rivalidade entre China e Estados Unidos em torno de Taiwan (foto) adiciona um novo ponto de pressão no complicado cenário de tensões que incluem os conflitos na Ucrânia e no Irã, em Israel, na Faixa de Gaza e no Líbano, entre outros.
Foto: Ministério das Relações Exteriores de Taiwan
Um elemento decisivo dessa nova configuração é a ascensão do Sul Global. Países da Ásia, África e América Latina diversificam parcerias e evitam alinhamentos automáticos com potências tradicionais
O Secretário de Defesa - cargo agora rebatizado para “secretário de guerra”- Pete Hegseth, durante a apresentação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA.
AP Photo/Julia Demaree Nikhinson
Nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos deixa de tratar a América Latina como espaço de cooperação estratégica e passa a enquadrá-la como área direta de contenção, controle e possível intervenção
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, discursa durante a última 80 Assembleia Geral da ONU: crise da entidade é um reflexo do contexto mais amplo da política internacional, em que há uma perceptível redistribuição de poder resultante da ascensão de países emergentes, sobretudo a China, e a redução relativa do poder norte-americano e europeu.
Aniversário ocorre em um momento de crise de representatividade da ONU, envolvida numa nova ordem mundial com crescentes disputas e competição entre os principais blocos de países e interesses internacionais.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Rasoul Mohajer, durante uma reunião do BRICS no Palácio do Itamaraty: em 2024, com a entrada do Irã nos BRICS, a aproximação entre Irã e Brasil se fortaleceu, gerando tensões na relação Brasil-Israel e levando parte da sociedade a cobrar do governo um posicionamento sobre a teocracia iraniana.
AP Photo/Bruna Prado)
Diplomacia brasileira deve articular soluções para o País retomar seu papel único de mediador na arena global – em vez de continuar servindo, ainda que involuntariamente, como combustível que alimenta a polarização
Incongruências do discurso que nega os efeitos das mudanças climáticas e refletem um radicalismo que se afasta cada vez mais do conservadorismo tradicional
O Ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira cumprimenta Vladimir Putin durante o encontro de cúpula do BRICS, outubro passado em Kazan: além de apenas recorrer à OMC, país poderia fortalecer cooperações internacionais com outras nações afetadas pelas medidas protecionistas norte-americanas.
Maxim Shemetov, AP Photo
Além de uma reclamação formal à OMC, o país poderia fortalecer cooperações internacionais com outras nações afetadas por medidas protecionistas norte-americanas, consolidando alianças em plataformas como o BRICS
Reunião de cúpula do BRICS em Kazan, na Rússia, no ano passado: mais em evidência do que nunca, bloco põe à prova sua capacidade de resistir às pressões externas e reconhecer as diferenças entre seus membros não mais como obstáculos, mas como valores fundamentais para a construção de uma nova ordem mundial marcada pela multipolaridade. Próximo encontro do grupo é em julho, no Brasil.
Alexander Nemenov, AP Photo
Mais em evidência do que nunca, grupo põe à prova sua capacidade de resistir às pressões externas e reconhecer as diferenças entre seus membros como valores fundamentais para a construção de uma nova ordem mundial
Avião com o filho do presidente, Donald Trump Jr., aterrisa em Nuuk, capital da Groenlândia, no último dia 7 de janeiro: preocupação americana com a ilha cresce na proporção em que aumenta a influência geopolítica da China e da Rússia no corredor estratégico do Ártico.
AP Photo / Emil Stach
Já no primeiro governo Trump, o Departamento de Defesa americano reformulou sua política do Ártico, afirmando que a presença da China e da Rússia na região pode se tornar um corredor para competição estratégica com os Estados Unidos
Sob ataque crescente da oposição e da maior parte da comunidade internacional, Maduro se perpetua no poder aliando popularidade com ações controversas de controle político, repressão e apoio econômico da China e da Rússia.
AP Photo/Matias Delacroix
Oposição e grande parte da comunidade internacional, liderada pelos EUA, apontam reforma constitucional recém-anunciada como novo artifício do governo para fortalecer o chavismo às custas de repressão e perpetuação no poder
Embora insatisfeito com a postura de Maduro, que se negou a mostrar as atas eleitorais em julho de 2024, o Brasil deve seguir uma abordagem pragmática, reconhecendo que romper completamente os laços com a Venezuela seria pouco vantajoso.
AP Photo/Gustavo Moreno (Arquivo)
A chegada de Trump ao poder pode ser
um fator de estabilização nas relações entre Brasil e Venezuela. O Brasil deve seguir uma abordagem pragmática. Romper os laços com a Venezuela seria pouco vantajoso.
Soldados dos EUA durante exercício no Centro de Treinamento de Prontidão Conjunta, em
Fort Johnson, Louisiana: Planos do Project 2025 para o governo Trump perpetuam visão expansionista e de altos gastos militares que podem ser incompatíveis com a atual conjuntura geoplítica inrternacional.
Army Spc. Isaiah Mount / Departamento da Defesa dos EUA
Identificando o declínio dos investimentos militares norte-americanos dos últimos anos, projeto de governo conservador dos EUA propõe aumento acentuado de investimentos em Defesa.
A securitização da economia internacional representa o processo em que temas como tarifas comerciais e uso de moedas alternativas ao dólar passam a ser vistos como ameaças à segurança do Estado, justificando ações emergenciais e excepcionais. É o que a futura administração de Donald Trump tenderá a fazer a partir do ano que vem.
AP Photo/Heather Khalifa
Nova ordem geoeconômica mundial, com suas novas tarifas comerciais e uso de moedas alternativas ao dólar passarão a ser vistos por países como os Estados Unidos como ameaças à segurança do Estado
A presidência brasileira obteve conquistas importantes para a nossa política externa e também para a ordem internacional baseada em regras e cooperação que busca preservar.
Silvia Izquierdo/ AP
Flavia Loss de Araujo, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)
O Brasil conseguiu apoio nos principais temas que propôs: o combate à fome e a necessidade de taxar os super-ricos. As ações concretas dependerão dos esforços de cada país e da correspondente pressão de suas sociedades civis.
O presidente Lula e Nicolas Maduro em um encontro em Brasília, em 2023, após oito anos de distanciamento: posição do Itamaraty sobre a duvidosa eleição na Venezuela pende entre a necessidade global de defesa intransigente da democracia e a postura de neutralidade e liderança regional que a marcam a tradição da diplomacia brasileira.
Marcelo Camargo/Agência Brasil
O imbróglio eleitoral venezuelano pode ser uma oportunidade única para o Brasil equilibrar demandas democráticas com os princípios históricos que trazem coerência e estabilidade à nossa política externa no âmbito regional
Futebol, samba, praia e pouca seriedade continuam sendo as principais percepções sobre o Brasil mesmo entre a comunidade política das principais nações.
AP Photo/Silvia Izquierdo
Futebol, samba, praia e pouca seriedade continuam sendo as principais percepções sobre o Brasil mesmo entre a comunidade política das principais nações
Doutora pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) e coordenadora da Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)
Doutorando do Programa Interinstitucional (UNESP/Unicamp/PUC-SP) em Relações Internacionais San tiago Dantas e do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional, Universidade Estadual Paulista (Unesp)