Covas abertas às pressas num cemitério em Teerã: quando os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos foram seguidos por retaliações contra bases militares americanas e também contra áreas civis e infraestrutura sensível, o ciclo de pressão transformou-se em guerra aberta.
Foto: Departamento Iraniano de Mídia Estrangeira, via AP
Ao tornar exigências públicas e mobilizar forças militares, os EUA elevaram o custo político de recuar. Diante da ausência de concessões nos termos esperados, a lógica da credibilidade empurrou a crise para o uso efetivo da força
Em Berlim, manifestante iraniano acende um cigarro na foto em chamas do aiatolá Ali Khamenei, num gesto simbólico de protesto contra o governo do país que se espalhou pelo mundo, em mais um episódio no qual o Irã se vê ameaçado de nova intervenção estrangeira.
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Interferências estrangeiras não são novidade no Irã. Elas têm sido relativamente frequentes e, em geral, penalizaram os próprios iranianos
Sem a presença de palestinos nem de israelenses, o tratado de paz em Gaza foi um acordo sustentado por mediadores — Estados Unidos, Egito, Catar e Turquia, que têm autoridade diplomática, mas sem legitimidade política real nos territórios afetados.
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Declaração de paz para Gaza no Egito contou com cerca de vinte líderes internacionais e transformou a cidade de Sharm el-Sheikh em palco de discursos sobre reconciliação e prosperidade, embora as partes diretamente envolvidas no conflito estivessem ausentes
Prisioneiros palestinos comemoram sua libertação no mesmo dia em que o Hamas soltou os reféns que ainda mantinha desde outubro de 2023: responsabilidade pelas pressões internacionais que levaram ao acordo é, principalmente, das mobilizações populares e da resistência civil.
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Os verdadeiros responsáveis para que os governos de Israel e dos Estados Unidos, bem como o comando do Hamas, tenham sido pressionados a aceitar um acordo foram e são as mobilizações populares
O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu (centro) em reunião com o enviado especial do presidente dos EUA, Donald Trump, para o Oriente Médio, Steve Witkoff (esquerda) e o genro do presidente, Jared Kushner (direita), em Jerusalém, em 9 de outubro.
Israel government press office/EPA
Esses tipos de cessar-fogo são acordos altamente coercitivos que permitem que a parte mais poderosa force a parte mais fraca a concordar com o que quiser.
Bandeiras são hasteadas do lado de fora da Missão Palestina no Reino Unido, em Londres, após o reconhecimento do governo.
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O reconhecimento diplomático, quando feito em conjunto, tem mais peso do que gestos isolados - e os governos sabem disso.
Uma cerimônia fúnebre é realizada no pátio do Hospital Nasser, em Gaza, após a morte de cinco jornalistas esta semana. Com as restrições israelenses à mídia estrangeira para entrar em Gaza, os jornalistas palestinos locais são as únicas pessoas que podem testemunhar a morte e a destruição que estão ocorrendo. De fato, quase todos os quase 200 jornalistas mortos desde 7 de outubro de 2023 eram palestinos.
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Um futuro Estado é complicado devido ao grande número de colonos israelenses nos territórios ocupados e às barreiras que Israel construiu para separar os palestinos.
Palestinians crowd to get food in Gaza City on July 30, 2025.
Abdalhkem Abu Riash/Anadolu via Getty Images
Jeff Bachman, American University School of International Service and Esther Brito Ruiz, American University School of International Service
As autoridades norte-americanas usaram várias estratégias retóricas para distanciar o país e evitar a responsabilidade pelas atrocidades cometidas por aqueles que ele apoia.
Rebeldes houthis no Iêmem comemoram o afundamento de um navio cargueiro que seguia pelo Mar Vermelho em direção a Israel. Imagens do ataque foram exibidas num telão, durante um protesto em praça pública, na cidade de Sanaa.
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O aumento dos ataques pode ser explicado pelo agravamento do conflito entre Israel e Palestina na faixa de Gaza. Os Houthis, grupo rebelde apoiado pelo Irã, miram em navios com alguma ligação com Israel ou aliados, e justificam seus atos como apoio aos palestinos.
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, visita uma exposição sobre as conquistas nucleares do país, em Teerã: o atual cessar-fogo com Israel surge como uma trégua frágil em meio a um contexto de extrema volatilidade, onde ainda pesa para os iranianos um sentimento de humilhação que gera pressão interna por uma resposta futura às hostilidades recentes.
Foto: Divulgação / Governo do Irã
A tese de que o Irã nuclearizado poderia criar um equilíbrio de poder com Israel é aceita na comunidade internacional, mas carece dos elementos que garantiram sua eficácia durante a Guerra Fria
Equipe de TV transmite ao vivo choro de mãe palestina após a morte do filho após ataque ataque aéreo israelense em Gaza: na era da guerra ao vivo, a mídia corporativa, aliada do complexo político industrial militar, abre o teatro de operações comunicacional em que as narrativas transformam a guerra em espetáculo e mercadoria.
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É preciso ampliar o acesso aos grandes debates tecnológicos e estratégicos por meio de plataformas participativas que integrem cidadãos, pesquisadores e formuladores de políticas.
O Irã tem algumas escolhas difíceis pela frente. O país prometeu uma resposta contundente, mas pode ser limitado no que realmente pode alcançar
Um ativista agita bandeiras revolucionárias da Síria, celebrando a derrubada do governo de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024: a queda do regime sírio foi o primeiro sinal de esgotamento do chamado “eixo da resistência” formado por Irã, Síria e Hezbollah.
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Os próximos meses serão decisivos para saber se surgirá uma nova ordem ou se o vazio de poder abrirá caminho para mais conflitos
Há poucos caminhos claros para o fim imediato dos conflitos entre Israel e Irã. E o que virá depois da guerra pode ser ainda mais preocupante. Imagem:
Atef Safadi/EPA
Há poucos caminhos claros para o fim imediato dos conflitos entre Israel e Irã. E o que virá depois da guerra pode ser ainda mais preocupante.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Rasoul Mohajer, posam para uma foto no encontro do BRICS no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, em 28 de abril de 2025. A manifestação oficial brasileira evita qualquer gesto que possa ser interpretado como escolha. Mas, diante da gravidade do ataque, a omissão de gestos concretos já constitui um posicionamento.
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O governo brasileiro, mais uma vez, opta por uma retórica que preserva sua tradição de neutralidade, mas ignora o novo cenário que ele próprio ajudou a construir ao acolher o Irã no BRICS.
Um bombeiro no local de uma explosão em um complexo residencial no norte de Teerã, que se acredita ter sido atingido por Israel.
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Trump tinha boas razões para tentar restringir Netanyahu enquanto as negociações nucleares com o Irã prosseguiam, mas Israel decidiu, em vez disso, tentar decapitar o “polvo”.
Embora a lei permita que uma guerra continue até que o agressor se renda, ela não legitima a destruição completa do território onde o agressor está lutando. O princípio da proporcionalidade também oferece proteção aos civis. As ações militares devem ser direcionadas às forças estrangeiras que lançaram o ataque, não aos civis.
Jehad Alshrafi/AP
Muitas nações concordaram que Israel tinha o direito à autodefesa após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023. Agora é discutível se essa defesa ainda se mantém 20 meses depois
O veleiro Madleen, dias antes de ser interceptado pela marinha israelense sob alegação de que estaria infringindo o bloqueio naval imposto pelo país ao litoral da Faixa de Gaza.
Salvatore Cavalli/AP
Os bloqueios podem ser utilizados em tempo de guerra, mas apenas se cumprirem cinco condições legais
Palestinos esperam na fila para receber refeições no campo de refugiados de Jabalia, na Cidade de Gaza, Gaza, em 17 de maio de 2025.
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Antes de 7 de outubro de 2023, o sistema alimentar de Gaza já estava em um ponto de ruptura. Agora, 18 meses de guerra e cerco israelense ajudaram a criar as condições para a fome em massa.