Corpos enfileirados após um suposto confronto que resultou na morte de dezenas de homens no complexo de favelas da Penha, no Rio de Janeiro, em outubro de 2025: nos últimos 22 anos, houve 23.159 mortes provocadas por ações policiais no estado do Rio de Janeiro. Compreender o que sustenta os discursos que justificam essa violência policial letal é a base dos estudos sobre esse grave problema social.
Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress
O descompasso entre fatos e percepções nos casos de violência policial representa sério obstáculo à condução racional de políticas de segurança pública
Em estados como o Amapá (foto), gastos com segurança pública cresceram 131% entre 2017 e 2026, contra 20% em ciêcia e tecnologia. E em Minas Gerais, a maior linha do orçamento de segurança é a de proventos de militares inativos, que custam quase o dobro do que é gasto com policiamento ostensivo.
Foto: Governo do Estado do Amapá
Em estados como o Amapá, gastos com segurança pública cresceram 131% entre 2017 e 2026, contra 20% em Ciência e Tecnologia. Mas os resultados não foram proporcionais.
Efeito Bukele: o caso do presidente El Salvador tornou-se a referência global dessa estratégia de exploração do medo como alavanca de poder.
AP Photo / Carlos Leon
O medo é real e as pessoas têm medo. A questão é quem se beneficia politicamente quando o Estado falha em resolvê-lo — e a que custo para a democrácia
Marco Camacho, o Marcola, apontado como líder do PCC, no dia em que foi preso: terrorismo, segundo o direito brasileiro e o entendimento predominante na literatura criminológica, pressupõe motivação ideológica, política ou religiosa. Nem o PCC nem o Comando Vermelho se encaixam nesse critério. São organizações movidas por uma lógica econômica: controlam rotas de tráfico, dominam territórios urbanos e operam cadeias de abastecimento com eficiência empresarial.
Foto: Agência Brasil
Robson Rodrigues, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
A classificação anunciada pelos Estados Unidos ignora o que sustenta o crime organizado: armas sem controle e dinheiro sem rastro. É uma forma de criar novos problemas sem resolver os antigos
Caráter transversal: a violência domina as preocupações dos brasileiros de todos os perfis eleitorais.
Imagem: Pesquisa Genial/Quaest (maio/2026)
Caio Cardoso de Moraes, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT/ReDem)
O relatório Medo do crime e eleições 2026 (produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP), publicado no início de maio, oferece um retrato sintomático do Brasil contemporâneo: 96,2% dos brasileiros…
Integrantes do PCC tomam o presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, durante rebelião em 2017: apesar da violência, do poder econômico e das ligações cada vez mais evidentes com políticos e juízes, as facções criminosas brasileiras não têm como objetivo destituir governos, espalhar o terror por razões religiosas ou instaurar regimes ideológicos.
Foto: Tribuna do Norte
A tentativa de enquadrar estas organizações como “terroristas” sob a ótica da legislação dos Estados Unidos é um movimento que carece de fundamentação factual e jurídica
Veículos incendiados nobairo de Almada, em Lisboa, no fim de 2025: sintomas iniciais de uma metamorfose estrutural na criminalidade portuguesa.
Imagem: Reprodução de TV
Episódios de violência urbana na capital de Portugal são sintomas iniciais de uma metamorfose estrutural da criminalidade no país. Um processo que, se não interrompido, conduzirá ao que chamam de “hegemonia da pólvora”
Em resposta à ação policial deflagrada na área do Complexo do Alemão e da Penha nos dias 28 e 29 de agosto de 2025, a cidade do Rio de Janeiro registrou uma série de distúrbios. Várias vias fechadas, ônibus sequestrados e pedras sendo lançadas contra viaturas policiais e carros que passavam por vias expressas. Esse cenário de caos, infelizmente, não parece novidade, tampouco tem prazo para acabar.
AP Photo/Silvia Izquierdo
Pablo Nunes, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC)
Desde 2020, o Rio de Janeiro teve cinco chefes de Polícia Civil, tendo um deles ficado no cargo por apenas 17 dias. Sinal claro de que falta um plano concreto para a segurança pública do estado
A ascensão dessas fábricas de “ghost guns”, armas sem número de série e, portanto, virtualmente irrastreáveis, representa um salto quântico na capacidade do crime organizado no país, consolidando uma demanda que nunca cessou e que redefine, de forma fundamental, os desafios da segurança pública no país.
A descoberta de fábricas clandestinas de armas noinrerior de São Paulo é um alerta contundente de que a guerra urbana no Brasil entrou em uma nova fase, mais autônoma, resiliente e industrializada
Uma praça da PM do Rio de Janeiro em ação nas ruas da capital: estudo da Faperj, ainda em andamento, demonstra que a questão do racismo não é ignorada pelos policiais militares, mas muitas vezes é despida de suas complexidades sociais e históricas - e se manifesta também entre eles, associada a casos de assédio moral e sexual dentro dos batalhões.
Imagem: ASCOM / PMERJ
Estudo da Faperj, ainda em andamento, demonstra que a questão do racismo não é ignorada pelos policiais, mas é despida de suas complexidades - e se manifesta também entre eles, muitas vezes associada a assédio moral e sexual
A imagem histórica, feita pelo célebre fotojornalista Alcyr Cavalcanti (1936-2024), mostra uma festa dentro do Presídio da Ilha Grande, promovida pelos membros da Falange Vermelha, que logo se tornaria o Comando Vermelho, para comemorar a morte de diversos membros da facção rival, a Falange Jacaré, em 1979.
Foto: Alcyr Cavalcanti
Para além da criminalidade pura e simples, é possível compreender as facções criminais do Rio de Janeiro como formas de resistência social surgidas dentro do sistema prisional, e que depois evoluíram para o crime organizado
O programa Smart Sampa, em São Paulo, que há dois anos opera câmeras em estações de metrô, escolas e UPAs, já tem histórico de equívocos. Num deles, mulher grávida foi apontada erroneamente como criminosa e, devido ao estresse, teve parto prematuro. Levantamento do CESeC e da DPU revela a fragilidade do controle sobre as tecnologias de vigilância no Brasil.
Foto: Divulgação / Prefeitura de São Paulo
Pablo Nunes, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) and Carolina Castelliano, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Levantamento mostra que 40% da população brasileira estão sob vigilância de sistemas de reconhecimento facial, mas o controle sobre a eficiência, a qualidade e os equívocos cometidos por estas tecnologias é muito pequeno
Viaturas da Polícia Rodoviária Federal participando de ações de repressão social em São Paulo, em 2022: entre as propostas do novo texto da PEC da Segurança Pública, está a extinção da PRF e a ampliação das atribuições da Polícia Federal.
AP Photo/Andre Penner
Robson Rodrigues, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Objetivo do governo é ampliar as atribuições da União e melhorar a integração das polícias locais com o Sistema Único de Segurança Pública. Mas entraves estruturais crônicos foram esquecidos, e problemas históricos, reforçados
Policiais acompanham protesto que pede a saída do Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, depois de inúmeros casos de abusos: 40 anos após a redemocratização, as polícias militares brasileiras ainda desempenham papel central de repressão política e social, perpetuando práticas violentas que são legitimadas dentro da instituição por um conceito deformado de segurança pública e atuação policial.
AP Photo/Tuane Fernandes
Robson Rodrigues, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
A violência policial reflete, em parte, as marcas históricas da formação do Estado brasileiro e de um modelo de policiamento colonial militarizado
Moradores da comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, pedem o fim da violência policial após ação da PM numa festa que terminou com a morte de nove moradores em 2019. Caso é um dos objetos do estudo apresentado neste artigo.
AP Photo/Nelson Antoine)
Estudo analisa a evolução do modus operandi e os perfis de vítimas e executores de 138 chacinas ocorridas em são Paulo entre 2009 e 2020.
Catracas com reconhecimento facial se espalham pelos estádios do país, mas estudos indicam problemas envolvendo a tecnologia e situações discriminatórias de cor, gênero e classe social. No Atlético Goianiense (foto) elas foram inauguradas este mês. Já as do rival Goiás, instaladas em 2022, são usadas em crianças, o que está em desalinho com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).
Foto: Ingryd Oliveira/Atlético Clube Goianiense
Pablo Nunes, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) and Raquel Sousa, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Tecnologia deverá ser obrigatória em todos os grandes estádios até 2025. Porém, estudos concluem que tais sistemas podem gerar discriminação e impactar desproporcionalmente grupos sociais específicos, baseados em classe, cor e gênero.
Policiais em ação em favela do Rio de Janeiro: para a cientista política Jacqueline Muniz, a capacidade coercitiva de uma polícia materializa as prioridades e escolhas políticas e ideológicas de um determinado governo.
AP Photo/Felipe Dana
Por trás das decisões e ações policiais nas ruas há direitos, valores e, sobretudo, políticos que deveriam delimitar a capacidade coercitiva da polícia para poder, de fato, governá‐la.
Criadas para preservar o patrimônio, as Guardas Municipais já são vistas em muitas cidades do país como alternativas de combate ao crime - mas também de repressão social -, o que fere suas atribuições constitucionais.
Leo Correa / Associated Press
A discussão sobre o armamento das Guardas Municipais pode estar atropelando o debate sobre a verdadeira função das forças de segurança locais nas cidades brasileiras.
O ex-deputado e conselheiro do Tribunal de Contas Domingos Brazão desembarca algemado em Brasília: político era historicamente associado à milícia e sua prisão, esperada. Mas a detenção também do ex-chefe de polícia Rivaldo Barbosa expôs o nível de degradação das instituições de segurança no Rio.
AP Photo/Eraldo Peres
Pablo Nunes, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC)
A prisão do ex-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, por participação na morte e tentativa de bloquear a justiça nas investigações, expôs mais uma vez a degradação das instituições de segurança pública do Rio de Janeiro.
Antropólogo, doutor em ciências sociais e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência (LAV-UERJ), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
professor do Departamento de Segurança Pública e pesquisador associado do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC), Universidade Federal Fluminense (UFF)
Pesquisadora do Laboratório de Análise da Violência (LAV-UERJ) e do Observatório Social do Futebol (UERJ)., Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)