Policiais passam por moradores em uma escavadeira usada para remover barricadas nas ruas durante uma operação de segurança contra o crime organizado na favela do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, Brasil, em 2023. Situação se repete na cidade há décadas.
Silvia Izquierdo/ AP Photo
É necessário um foco maior na luta contra a corrupção nas Polícias do Rio. Com o fortalecimento das Corregedorias internas e de autoridades independentes que possam recolher as denúncias do cidadãos
Mais de cem organizações convocaram um ato em solidariedade aos familiares e em repúdio a política de massacre e chacinas nas favelas, nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro. Faixas repudiam o governador Claudio Castro.
Foto: Fernanda Piccolo /Fotoarena/Folhapress
O problema não é o tráfico somente, mas a negligência sistêmica do Estado. A violência que atinge os moradores vem das duas frentes – do crime e do poder público – e é a mesma: a de um país que aprendeu a conviver com o abandono e a banalizar seus horrores.
Moradora beija um corpo coberto, no dia seguinte a operação policial no Complexo da Penha. O governo do Rio de Janeiro, provavelmente, queria gerar um fato político, para se apresentar como implacável contra o crime em ano pré-eleitoral, sabendo que a segurança pública será um dos principais motes da campanha.
Ricardo Moraes/ Reuters
Ignacio Cano, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
A estratégia de invadir territórios, matar suspeitos, apreender algumas armas e drogas, nunca conseguiu desarticular as facções criminosas, mas comprova a velha tradição da segurança pública de dobrar a dosagem quando o medicamento não mostra os efeitos desejados.
Sob o ponto de vista das organizações pelos direitos humanos, a operação policial contra criminosos não foi uma “guerra contra o narcoterrosimo”, mas um novo massacre contra o andar de baixo do crime organizado, deixando os grandes financiadores do tráfico invisíveis, ilesos e proliferando dentro da própria estrutura do Estado.
Não há como falar em combate ao crime se o crime está dentro da máquina pública. Do modo como vem sendo feito, o aumento da repressão ao tráfico só tem logrado aumentar o preço da droga, as pilhas de cadáveres nas favelas, e a concentração do mercado nas grandes facções
Abordagens policiais sem método, que podem levar a agressões extremas: ainda se sabe muito pouco sobre como decisões são tomadas durante estas abordagens, mas um estudo do Departamento de Letras da PUC-Rio sugere que a falta de conhecimento sobre linguagem corporal por parte dos agentes da lei pode levar a atitudes violentas sem necessidade.
Thiago Gomes/Agencia Para via AP
Pesquisa sugere que treinamentos de policiais com vídeos de casos reais poderiam prepará-los para atuar melhor em situações de estresse
No Brasil, o uso excessivo da força policial é responsável por milhares de mortes e pelo encarceramento em massa, atingindo de forma desproporcional a população negra. Essa letalidade, associada à política de “guerra ao crime”, é interpretada como parte de um processo de “limpeza social” voltado à eliminação de setores considerados indesejáveis.
AP Photo/Andre Penner
A violência no Brasil segue um padrão que atinge principalmente pessoas negras e pobres, constituindo um dos maiores desafios contemporâneos da justiça global
Policiais em ação em favela do Rio de Janeiro: para a cientista política Jacqueline Muniz, a capacidade coercitiva de uma polícia materializa as prioridades e escolhas políticas e ideológicas de um determinado governo.
AP Photo/Felipe Dana
Por trás das decisões e ações policiais nas ruas há direitos, valores e, sobretudo, políticos que deveriam delimitar a capacidade coercitiva da polícia para poder, de fato, governá‐la.
Doutor em sociologia, professor e autor do livro "Dos Barões ao extermínio: uma história de violência na Baixada Fluminense", Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)