Ao deixar de lado normas básicas do jornalismo em favor do patriotismo e da narrativa de “guerra ao terror” imposta pelo governo e movida pelo medo, organizações jornalísticas arquitetaram seu próprio declínio e alimentaram a ascensão da atual “era da desinformação”.
Walter Cicchetti/Shutterstock
As redações, em vez de atuarem como órgãos de fiscalização críticos, ecoaram a narrativa do governo Bush
Imagem ilustrativa de um correpondente estrangeiro em ação numa zona de guerra: profissão que um dia já foi glamourizada e disputada passa por período de esvaziamento e precarização. Jornalistas brasileiros que migraram para o exterior relatam que ganham menos e trabalham mais, num contexto degradante que influencia diretamente a qualidade do que é publicado.
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Jornalistas brasileiros que migraram para o exterior ganham menos e trabalham mais, num contexto degradante que influencia diretamente a qualidade do que é publicado
Mais do que um denunciador de fake news, o jornalismo de verificação é fundamental nos mecanismos da sociedade de resposta à desinformação, que deve incluir também educação midiática, regulação, responsabilização de plataformas e políticas públicas de comunicação.
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Taís Seibt, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)
Mais do que um denunciador de fake news, o jornalismo de verificação é fundamental nos mecanismos da sociedade de resposta à desinformação
Responda rápido: essa foto mostra um Nicolás Maduro capturado, preso, deposto, extraditado ou sequestrado? A resposta pode depender do alinhamento político ou ideológico de quem a descreve, e achar o termo mais correto só não é tão difícil quanto saber o que esperar do “julgamento” de alguém acusado sem provas, detido por forças estrangeiras e transportado com vendas nos olhos para comparecer perante o juízo de um país que, segundo a própria ONU, o Papa e até o jornal The New York Times, agiu de forma ilegal e imprudente.
Imagem: Truth Social/@realDonaldTrump/Reprodução
A escolha da palavra diz muito sobre o alinhamento de um determinado veículo de imprensa com determinadas narrativas ou ideologias
Em nível global, 48% dos usuários com menos de 35 anos consomem notícias por meio de criadores, superando os 41% que recorrem à mídia tradicional. No Brasil, a descentralização da influência é ainda mais acentuada. Com 84% da população conectada à internet e 54% consumindo notícias semanalmente pelas redes sociais, os criadores de conteúdo independentes já superam as marcas jornalísticas tradicionais na atenção regular do público: 33% contra 30%.
Imagem gerada por IA, via Envato Labs
Análise feita pela Reuters em 24 países mostra que o impacto dos criadores de conteúdo é menor em países do Norte da Europa e no Japão. Já em mercados de alto impacto, como o Brasil, eles dominam o fluxo informativo
Uma cerimônia fúnebre é realizada no pátio do Hospital Nasser, em Gaza, após a morte de cinco jornalistas esta semana. Com as restrições israelenses à mídia estrangeira para entrar em Gaza, os jornalistas palestinos locais são as únicas pessoas que podem testemunhar a morte e a destruição que estão ocorrendo. De fato, quase todos os quase 200 jornalistas mortos desde 7 de outubro de 2023 eram palestinos.
Abed Rahim Khatib/Anadolu via Getty Images
Desde outubro de 2023, os ataques israelenses em Gaza mataram quase 200 jornalistas. Mas o direcionamento da mídia é anterior ao conflito atual.
Estrada vicinal cruza região calcinada pelas queimadas no Pantanal, em 2024: discurso predominante na cobertura midiática das mudanças climáticas é marcado por catastrofismo que pode dificultar visão mais crítica por parte do público sobre as causas e consequências do problema.
Foto: Lalo de Almeida/Folhapress
Levantamento analisou 38 publicações científicas e identificou padrões na cobertura jornalística do tema na América Latina, com destaque para o caso brasileiro
Casos como os de Rodrigo Bocardi - demitido da TV Globo por “descumprir normas éticas” - e Jim Acosta - que pediu demissão ao vivo da CNN por discordar do alinhamento da emissora com o governo Trump - são casos distintos mas que chamam a atenção para a transparência editorial, a coragem e a ética no jornalismo.
Reprodução de TV
As organizações nativas digitais são importantes por explorarem novos modelos de receita e pela (re)valorização do papel social do jornalismo
“A ameaça Google”, diz a matéria de telejornal australiano: à medida em que as fontes de receita tradicionais se esgotam, as organizações tradicionais de mídia recorrem cada vez mais à “filantropia tecnológica”, com riscos de comprometer sua independência.
Reprodução de TV
O dinheiro das Big Tech está redefinindo o futuro do jornalismo. Pesquisa abrangendo África, América Latina e Oriente Médio revela uma complexa teia de dependência que se forma entre redações com dificuldades financeiras e os cofres do Vale do Silício
Mulheres protestam contra feminicídio nas ruas do Rio: Pesquisa sobre o comportamento da mídia em casos de violência contra a mulher indica que muitas vezes o histórico de violência anterior do perpretador e a situação das mulheres após o crime são omitidos, e o termo “feminicídio” é pouco usado.
AP Photo/Leo Correa
Dar voz às vítimas de violência, abordar os casos sob ótica dos direitos humanos e evitar ênfase à defesa do agressor são alguns dos cuidados a serem tomados pela imprensa na cobertura de casos de feminicídio
Professora no PPG de Comunicação do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e na graduação em Jornalismo, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)