Integrante do povo Paiter Suruí, comunidade que primeiro adotou um projeto de crédito de carbono integradoà manutenção daflroesta em pé, em 2009: os Suruí criaram mecanismos de governança, formas de pensar e interagir com o seu território com base em modelos externos ao seu modo de vida.
Foto: Divulgação / Associação Kanindé
Mesmo quando trazem benefícios econômicos e ambientais, iniciativas de sustentabilidade podem impor modelos de desenvolvimento que não se adequam ao modo de vida indígena
Transformar a floresta em pé em um ativo econômico mais valioso do que sua derrubada é uma das estratégias possíveis para reforçar a preservação. Uma possibilidade é criar um Crédito de Conservação, vinculado ao carbono estocado na floresta e aos serviços ambientais que ela presta — regulação climática, biodiversidade, recursos hídricos etc. E isso não está mais só no campo da teoria: a Unesp já desenvolveu uma metodologia específica para quantificação desses serviços ambientais.
Foto: Igor Tichonow / Envato
Iraê Guerrini, Universidade Estadual Paulista (Unesp)
Derrubar floresta vale mais que mantê-la. Porém, se o hectare de floresta em pé valer mais do que o de soja ou gado, a lógica se inverte
Projeto de reflorestamento na Represa Billings, em São Paulo, que completou 100 anos em 2025: promessa de que a Restauração Ecológica sempre contribui para mitigar a crise climática pode ser enganosa. Se por uma lado é positiva para a biodiversidade, sua aplicação em projetos que visam apenas gerar créditos de carbono pode desestimular a adoção de outras medidas mais efetivas.
Cada vez mais usada para gerar créditos de carbono, a restauração ecológica não é capaz de capturar todo o resultado da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento
A expressão “taxonomia verde” funciona como um selo de qualidade para investimentos de impacto ambiental. Mas enquanto países desenvolvidos já estruturam suas taxonomias há anos, o Brasil ainda precisa equilibrar a proteção ambiental com a necessidade de desenvolvimento econômico. Na Europa, as regulamentações de mercado verde estão cada vez mais rigorosas, impactando diretamente nossas exportações de produtos relacionados ao desmatamento, tais como soja (foto), carne bovina, cacau, café e madeira.
Foto: Marcelo Justo/Folhapress
Sem um sistema claro de definição do que são, de fato, investimentos “verdes”, corremos o risco de ver recursos destinados à sustentabilidade sendo desviados para iniciativas que não garantem impactos positivos reais
A “Zona Verde”, área da COP29 onde organizações internacionais compartilham ideias sobre redução das emissões de carbono: Pesquisa recente revela que muitas empresas praticam a chamada “lavagem verde” comprando créditos de carbono baratos de projetos de compensação de baixa qualidade. Regulamentação do mercado anunciada esta semana no Azerbaijão pode mudar este quadro.
AP Photo/Sergei Grits
Na semana em que a COP29 anuncia a proposta de regulamentação de um mercado mundial de carbono, um mergulho nas práticas de 866 empresas de capital aberto e 1.413 projetos de créditos de carbono revela quais dependem de compensações baratas e quais realmente optam por reduzir suas próprias emissões