A mina Serra Verde, em Goiás, que extrai neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, essenciais para a produção de imãs usados em equipamentos médicos de alta tecnologia: Brasil possui as segundas maiores reservas conhecidas de minerais críticos do mundo, mas ainda explora pouco esse potencial, o que torna o país um alvo do interesse estadunidense para garantir acesso privilegiado a esses recursos.
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Brasil ganha espaço na disputa internacional por minerais estratégicos, enquanto Senado aprova política para o setor e BNDES financia centro de processamento em Minas Gerais
Vista de satélite do Parque Solar de Bhadla, na Índia: Energial impa às custas de alumínio, silício, cobre, prata e outros materiais extraídos em diferentes partes do mundo.
Fonte: Google Earth
João Stacciarini, Instituto Federal Goiano (IF Goiano); Universidade Federal de Goiás (UFG) and Ricardo Assis Gonçalves, Universidade Estadual de Goiás (UEG)
Painéis solares, turbinas, baterias, veículos e redes elétricas ajudam a reduzir emissões, mas precisam ser fabricados, mantidos e substituídos. Sem equipamentos mais duráveis, reparáveis e recicláveis, a demanda por matérias-primas continuará elevada
Área de extração de nióbio em Araxá, Minas Gerais: além deste, território brasileiro dispõe de reservas significativas de lítio, grafite, manganês, níquel e silício. Desafio é ampliar a capacidade de agregação de valor a estes elementos químicos, especialmente através das etapas de refino e transformação industrial.
Foto: Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) / Divulgação
Clauber Leite, Universidade de São Paulo (USP); Instituto E+
O Brasil possui reservas significativas de minerais críticos, mas precisa se posicionar não por sua capacidade de extração, mas pela agregação de valor com o refino e a transformação industrial desses produtos
Um minerador artesanal segura uma pedra de cobalto em uma mina perto de Kolwezi, no Congo, em 2022: cerca de 20 mil pessoas trabalham ali em meio a materiais tóxicos, em operações que afetam a saúde e a segurança hídrica de toda população da região.
Junior Kannah/AFP via Getty Images
A rápida expansão da extração de minerais essenciais está sacrificando o bem-estar humano e ecológico em nome dos avanços tecnológicos, mas existem maneiras de resolver isso
Barcos de pesca partem de Zhoushan, China: navios permanecem no mar por meses, muitas vezes em águas longe do litoral de seus países, em práticas de sobrepesca que degradam ecossistemas marinhos e afetam a subsistência de populações costeiras.
Zou Xunyong/VCG via Getty Images
A expansão do transporte marítimo no Ártico, a corrida pela mineração do fundo do mar e a pesca excessiva são fatores de pressão nas relações internacionais.
Manifestantes seguram cartazes satirizando o presidente Trump e o presidente argentino, Javier Milei, durante um protesto em frente à Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires: a difícil nova conjuntura mundial que se avizinha - especialmente para as sociedades latino-americanas - não pode levar ao imobilismo, e nem se pode menosprezar o potencial da população norte-americana de conter os excessos de seu atual governo.
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Ameaças militares, diplomacia coerciva ou intervenções com o uso da força começam a se tornar “normais”, e o arcabouço de normas, princípios e direitos universais se esvai
Historicamente, Brasil é fornecedor global de muitos dos minerais “estratégicos”, na maior parte dos casos com baixa agregação de valor e, provavelmente, continuará sendo apenas exportação de bens não industrializados.
Foto: Arthur Hidden/Freepik
Bruno Milanez, Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
o termo “minerais estratégicos” tem tido um uso particular. Aqui, essa qualificação é usada principalmente para, sob uma vaga promessa de industrialização, legitimar o aumento da extração e criar condições de excepcionalidade na forma de maior flexibilização do licenciamento ambiental e de novos benefícios econômicos.
Monazita, bastnasita, xenótimo e outros elementos químicos conhecidos como terras raras: interesse explícito dos EUA sobre estes minerais é cada vez mais ameaçador, mas não se vê reação por parte da comunidade científica brasileira.
Apesar da explícita ameaça norte-americana sobre estes minerais cada vez mais importantes para a indústria de alta tecnologia, historicamente grande parte da comunidade científica brasileira mantém-se alheia ao problema.
Mina Boa Vista, de extração a céu aberto de nióbio em Catalão (GO) pela mineradora chinesa CMOC.
Foto cedida pelos autores
Por que os Estados Unidos querem minerais brasileiros em troca de concessões comerciais — e o que isso revela sobre a geopolítica dos recursos críticos
Na República Democrática do Congo (RDC), país da África Central que foi colônia da Bélgica até os anos 1960 e atualmente responde por cerca de 74% da produção global de cobalto, trabalhadores transportam o minério bruto em bicicletas, expondo-se a metais tóxicos e elevando o risco de doenças graves.
Roy Maconachie (2024)
Cerca de 80% da energia consumida no planeta ainda provém de fontes fósseis, agravando a poluição e as mudanças climáticas. Populações locais sofrem os impactos socioambientais, enquanto os benefícios da transição energética se concentram no Norte Global
Donald Trump e os presidentes da Senegal, Guiné-Bissau. Gabão e Mauritânia, durante almoço na Casa Branca cujo tema foi mineração: interesse dos EUA nas jazidas de minerais críticos na África - e no Brasil também - é cada vez mais voraz, pelo emprego estratégico destes materiais na fabricação de baterias e outras tecnologias essenciais para a transição energética.
Evan Vucci / AP Photo
Se por muitos anos a política americana para a África foi marcada por programas de ajuda e cooperação, agora a lógica se volta ao comércio e à disputa direta com a China pelo controle das cadeias produtivas do futuro
A Reserva Biológica do Morro dos Seis Lagos, no município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas: localizada dentro de território indígena, a reserva guarda ricos depósitos de manganês e nióbio, e está sob a mira da exploração mineral na região.
Foto: Lalo de Almeida / Folhapress
Transição para futuro com menos carbono aumenta busca por metais essenciais à energia limpa, como lítio, níquel e cobre, e isso pode acelerar a destruição ambiental em uma das regiões mais vulneráveis do planeta.
Uma água-viva no fundo do mar na Zona Clarion-Clipperton: processos de mineração propostos são invasivos, e além de destruir o leito marinho vão lançar grandes quantidades de material em regiões de média profundidade da coluna d'água.
Diva Amon and Craig Smith, University of Hawaii at Mānoa
Os métodos de mineração desenvolvidos para coletar minerais essenciais do fundo do mar criam plumas de sedimentos mais acima na coluna d'água, onde vivem muitas criaturas.
Cristais de nióbio, elemento essencial para a fabricação de ligas metálicas de alta performance e supercondutores usados no desenvolvimento de Inteligências Artificiais: Brasil detém 95% de todo o nióbio do mundo. Porém, nossa participação no mercado dos minerais críticos - que incluem ainda o grafite, o cobalto e o níquel, entre outros - ainda não chega a 1%.
Foto: Minera Brasil (Agência de Notícias da Mineração Brasileira)
País possui aproximadamente 10% das reservas globais desses recursos, incluindo a maior reserva mundial de nióbio, a segunda maior de grafite e a terceira maior de terras raras e níquel
Vista aérea de poças de salmoura que evaporam lentamente, deixando para trás lítio e outros minerais, na mina SQM no deserto de San Pedro de Atacama, no norte do Chile, em 18 de abril de 2023: mineração mal feita pode ter graves consequências para a saúde humana e o meio ambiente.
(AP Photo/Rodrigo Abd)
A tentação de justificar a mineração de minerais críticos a todo custo é uma falácia perigosa. Os impactos sociais e ambientais de minerais críticos mal minerados são terríveis